terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A visão da ciência nutricional sobre o café: faz bem ou faz mal?





Luiz Fernando Miranda da Silva, Karla Silva Ferreira


A palavra "café" vem do árabe Kahoua ou Qahwa (o excitante) e é designado como o fruto do cafeeiro, que origina a bebida consumida há mais de mil anos (1).Existem vários tipos de cafés e modos de preparo (Quadro 1), e no Brasil, o mais popular é o pó de café que origina o café expresso e o café de coador ou caseiro, que representa 67% do tipo de café mais consumido no país (2).
         
Quadro 1. Espécies, tipos de cafés e modos de preparo



O café é a segunda bebida mais consumida no Brasil, perdendo só para a água. É consumido em 98% dos lares e sua ingestão per capita chega a 81 litros por ano. O Nordeste, o Sul e o Centro-Oeste são regiões onde mais cresce o consumo de café, e o Estado de MG é o maior produtor (2).
Os efeitos do café sobre a saúde vão muito além do estímulo metabólico causado pela cafeína. Os principais compostos do café são as metilxantinas (cafeína, teobromina e teofilina), beta carbonilas (harmana e nor-harmana), ácidos clorogênicos (cafeoilquínicos, feruloilquínicos, dicafeoilquínicos, p-cumaroilquínico, cafeoilferuloilquínicos), (1,5) y-quinolactonas, tocoferóis, 5-hidroxitriptamidas, diterpenos e melanoidinas (6,8).

As metilxantinas são compostos com estruturas similares à adenosina (8), um nucleosídeo formado por uma adenina e uma ribose. No sistema nervoso central, a adenosina atua também como neurotransmissor, que, quando ligado ao receptor AI e A2A dos neurônios, produz efeito inibitório da atividade cerebral (efeito calmante). As metilxantinas, principalmente a cafeína, possuem a mesma capacidade de se ligar a estes receptores. É como se as metilxantinas roubassem o lugar da adenosina no seu receptor, bloqueando sua ligação e, portanto, a sua ação “calmante”. Consequência disto é o estímulo do metabolismo celular, que gera melhoria da memória, concentração e inibição do sono. Dentre as metilxantinas, a cafeína é a que possui efeito mais potente. Outro efeito estimulatório das metilxantinas é pela inibição das fosfodiesterases, enzimas que anulam o efeito do AMP cíclico (adenosina monofosfato) na ativação de outras enzimas do metabolismo, tornando-o menos ativo. Quando as metilxantinas se ligam a estas enzimas, impedem a degradação do AMP cíclico, gerando assim efeito estimulante do metabolismo (6,8).  


Figura 1. Metilxantinas presentes no café (8)

Diante deste efeito, veio a dúvida se o efeito da cafeína é maléfico ou benefícios à saúde, e em quais condições. As pesquisas atuais possibilitaram aos cientistas concluírem que o consumo de 3 a 4 xícaras de café/dia é capaz de prevenir dores de cabeça, doença de Parkinson, Alzheimer, depressão e pequeno efeito na redução de gordura corporal por meio da termogênese (100 Kcal, o que equivale ao consumo de um bombom). Gestantes, porém, devem restringir o consumo de café para não ultrapassar 150 mg de cafeína diariamente (até 2,5 xícaras de 60 mL de café expresso ou 4 xícaras de 60 mL de café caseiro feito com 20 g de pó para 250 mL de água) (8,6,9).

Não há estudos que mostrem que o consumo de café cause hipertensão, doenças cardíacas e gastrointestinais. Mas as pessoas já diagnosticadas com alguma destas doenças e/ou sob excesso de estresse ou fumantes devem reduzir ou suspender o consumo de café.

Existem no mercado os cafés descafeinados, que são a alternativa para as pessoas sensíveis ao efeito da cafeína. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) regulamenta que os cafés descafeinados não solúveis devem ter, no máximo, 0,1% de cafeína, e os solúveis 0,3%. Em caso de doença de refluxo do conteúdo gástrico, o consumo de café descafeinado também é prejudicial, mas tem efeito menos potente que o café tradicional (10). Estudos indicam que as metilxantinas contribuem para o relaxamento do esfíncter esofagiano (favorecendo o refluxo) e um componente presente na cera do grão do café, a 5-hidroxitripamida, é capaz de irritar a mucosa gástrica e estimular a secreção ácida (17). Já existem na Europa, produtos com menor quantidade dessa substância, denominados “cafés amigos do estômago”(3).

O hábito do consumo de café após as refeições é uma tradição e não há comprovação de que isso cause anemia. Entretanto, alguns profissionais tem recomendado evitar o consumo de café, mesmo sem cafeína, imediatamente antes, durante ou logo após refeições que contenham alimentos fonte de ferro, como por exemplo, cárneos, feijão, lentilha, amendoim e soja. Eles alegam que compostos fenólicos e melanoidinas presentes no café são capazes de se complexarem com o ferro no intestino e impedir a sua absorção.  Por este motivo, as pessoas com deficiência de ferro devem atentar para a possibilidade de o café inibir a absorção deste elemento.

O processo de torração afeta a composição química do café. Parte dos antioxidantes são degradados (ex. ácidos clorogénicos, tocoferóis), porém outras substâncias benéficas são formadas, como é o caso da harmana e nor-harmana (duas B-carbonilas), melanoidinas e 1,5 ƴ-quinolactonas (formada a partir da degradação dos ácidos clorogénicos). A ingestão de café com  estes compostos reduz o risco do desenvolvimento da doença de Parkinson e Alzheimer. Entretanto, a torra excessiva leva à formação de compostos tóxicos (aminas heterocíclicas) (6,8,11,12). A torra ideal é torra média, o que pode ser observado pela cor do pó, que não deve ser muito escuro (Figura 2).

A legislação brasileira estipula qualidades mínimas que o café deve apresentar para que possa ser comercializado. O teor de umidade do grão beneficiado cru deve ser, no máximo, 12,5% e matérias estranhas e impurezas, no máximo, 1%. Para o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), matéria estranha significa detritos vegetais não oriundos do produto, grãos ou sementes de outras espécies e corpos estranhos de qualquer natureza, tais como pedras ou torrões. As pedras são oriundas da varrição ou de fragmentos do piso do terreiro, fase em que o café é colocado ao sol para perder umidade. Presença de insetos vivos no produto o torna para comercialização. A impureza é designada como casca, pau e outros detritos provenientes do próprio produto. Características do grão, negra opaca, e defeito físico também podem invalidar a comercialização. Por fim, também não podem ser vendidos cafés que apresentem: aspecto generalizado de mofo, mau estado de conservação, odor estranho de qualquer natureza (impróprio ao produto), resíduos de produtos fitossanitários, teor de micotoxinas e outros contaminantes ou substâncias nocivas à saúde acima do limite estabelecido por legislação específica vigente e nem presença de sementes tóxicas (13).

A Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic) (15),  não governamental,  lançou em 1989 o selo de controle de pureza do café. O objetivo é o monitoramento contínuo das marcas, a fim de inibir a ação de empresas que adulteram seus produtos e desmitificar a ideia de que cafés de qualidade eram apenas os exportados (Abic). Atualmente já existem mais de 500 empresas detentoras de mais de 1000 marcas de cafés comercializados. A Abic atesta que 5% das marcas são impuras. A empresa não é obrigada a aderir ao programa, e o não cumprimento do regulamento interno impede apenas que a mesma use o selo na embalagem do produto, mas não a sua comercialização, que depende exclusivamente do controle do Mapa.


Figura 2. Grãos do café arábica e robusta e diferentes graus de torra do café (15) 





Figura 3. Composição de Grãos Crús de Café (% base seca) (12)





Figura 4. Imagem do fruto maduro (16)

O café robusta (utilizado para fabricação do expresso), contem maior quantidade de cafeína e de ácido clorogênico que o café arábica (café solúvel e coado). Os tocoferóis (vitamina E) não são totalmente eliminados durante a torra, e estão presente no óleo do grão (principalmente no café arábica). Durante a fabricação do café expresso, há maior extração da parte lipídica do pó, e portanto, maior concentração de tocoferol quando comparada ao caseiro (filtragem simples) (11,12).  

Não há comprovação de que o consumo de café por si só provoque o surgimento de câncer, embora haja indício de que possa aumentar o risco de câncer de próstata. Todavia, a ingestão de pelo menos 2 xicaras de café por dia está relacionada com prevenção de vários tipos de câncer (mama, ovário, pele, reto, cólon e fígado). Os mecanismos bioquímicos ainda não estão elucindados, mas acredita-se que seja em função da ação de antioxidantes presentes na bebida, especialmente os diterpenos (cafestol e khweol) e polifenóis (17, 18).

O café tem efeito benéfico para os diabéticos, pois ajuda no controle da taxa de glicose sanguínea, pois é capaz de aumentar a sensibilidade dos receptores de insulina à mesma (6). Os mecanismos, entretanto, ainda não foram esclarecidos.

Referências

1. ABIC. Curiosidades. Disponível em < http://www.abic.com.br/publique/cgi/cgilua.exe /sys/start.htm?sid=55>. Data de acesso: 18 de novembro de 2015.
2. Embrapa. O café é a segunda bebida mais consumida no Brasil. Disponível em http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:abGdqThN1l8J:https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/2574254/cafe-e-a-segunda-bebida-mais-consumida-no-brasil+&cd=2&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br. Data de acesso: 20 de setembro de 2015.
3. Illy, A.; Viani, R.; Espresso Coffee: the Science of Quality; 2nd ed., Else¬vier Academic Press: London, 2005
4. Smith, A. W. Em Coffee: Chemistry; Clarke, R. J.; Macrae, R., eds.; Elsevier Applied Science Publishers: London, 1987, vol. 1
5. Revista do agronegócio do café. Glossário Café: tipos, características e preparo. Disponível em: < http://www.revistacafeicultura.com.br/index.php?mat=15304>. Data de acesso: 20 de setembro de 2015.
6. Alves RC, Casal S, Oliveira, Beatriz. Benefícios do café na saúde: mito ou realidade? Quim. Nova, Vol. 32, No. 8, 2169-2180, 2009
7. Alves, AM. Jornal da Unicamp. Pesquisador desenvolve extrato de café solúvel. 243 (1):4, 2004.
8. Junior, ELC. Teores de metilxantinas e compostos fenólicos em extratos deerva-mate (Ilex paraguariensis St. Hil.). Universidade Estadual de Maringá. 124p. 2006
9. CAMARGO MCR, TOLEDO MCF. (1998) Teor de cafeína em cafés brasileiros. Ciênc. Tecnol. Aliment. 18 (4) 421-424p.
10. Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Portaria no377, de 26 de abril de 1999.
11. MONTEIRO MC,  TRUGO, LC. Determinação de compostos bioativos em amostras comerciais de café torrado. Quím. Nova [online]. 2005, vol.28, n.4, pp. 637-641. ISSN 1678-7064.
12. SALDAÑA MDA, MAZZAFERA P, MOHAMED RS. Extração dos alcalóides: cafeína e trigonelina dos grãos de café com c supercrítico. Ciênc. Tecnol. Aliment. vol. 17 n. 4 Campinas Dec. 1997
13. Brasil. Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento.  Regulamento Técnico de Identidade e de Qualidade para a Classificação do Café Beneficiado Grão Cru. Instrução normativa no 8, 11 de julho de 2003.
14. ABIC. Café: a qualidade começa pela pureza. Disponível em http://www.abic.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=2. Data de acesso: 18 de novembro de 2015.
15. ____Blog do café. Tipos de torra do café. Disponível em <http://blogdocafe.com/2015/06/25/tipos-de-torra-de-cafe/. Data de acesso: 19 de novembro de 2015.
16. ____ Google. Imagens. Grão de café maduro. Disponível em <https://www.google.com.br/search ?q=caf%C3%A9+torra&biw=1366&bih=623&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwiM25ehyarJAhWHN5AKHfOqCakQ_AUICCgD#tbm=isch&q=caf%C3%A9+maduro. Data de acesso: 19 de novembro de 2015.
17. Ainslie-Waldman EC, et al. Coffee intake and gastric cancer risk: The Singapore Chinese Health Study. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev, 2014.  23(4): 638–647.
18. Yu X, Bao Z, Zou J, Dong J. Coffee consumption and risk of cancers:a meta-analysis of cohort studies.  BMC Cancer 2011, 11:96.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Coluna Nutrição: Vitamina D




Sem sol, peixes, gema de ovo, fígado e manteiga: 

sem vitamina D!


Tabatha de Souza Vasconcelos, Karla Silva Ferreira e Luiz Fernando Miranda da Silva

A primeira função atribuída à vitamina D foi na absorção de cálcio, que a faz essencial para a formação dos ossos. Para exercer esta funçãom, o Instituto de Medicina (IOM) recomenda a ingestão diária de 15 microgramas de vitamina D ativa (D3) para a população em geral. Para pessoas acima de setenta anos, orienta-se a ingestão de 20 microgramas de vitamina D (3). A quantidade máxima de ingestão da vitamina D foi definida em 100 microgramas por dia.(1)

Estudos recentes têm provado que a vitamina D possui inúmeras outras funções além do metabolismo do cálcio. Ela atua na redução do risco de diabetes tipo I e II, redução de algumas doenças autoimunes (como a esclerose múltipla), prevenção de alguns tipos de câncer, (2) síntese de hormônios sexuais masculinos (testosterona) e funções musculares. (3,4) A testosterona é um hormônio que tem como uma das funções promover a síntese de massa muscular.

Apesar de receber o nome de vitamina, a vitamina D é um hormônio. Há uma substância inicial que tanto pode vir dos alimentos quanto ser formada no organismo pela exposição da pele à luz solar. Esta substância é denominada D2 ou ergocalciferol. Posteriormente, ela sofre modificações para ficar na forma de vitamina D ativa, também denominada de D3 ou colecalciferol. Pouquíssimos alimentos fornecem a substância precursora da vitamina D ativa, daí a grande importância da exposição à luz solar ou, na falta desta possibilidade, o uso de suplementos ou de alimentos enriquecidos. Os alimentos fontes da substância precursora da vitamina D são: peixes gordos (arenque, salmão, cavala e, em menor quantidade, sardinha e atum), gema de ovo, fígado, manteiga e alguns raros cogumelos. O leite integral contem pouquíssima vitamina D. O óleo de fígado de bacalhau é um extrato oleoso de peixe que tem sido há anos utilizado como suplemento alimentar desta vitamina D (Tabela 1). 



Nos EUA, a Escola de Saúde Pública de Harvard incluiu a suplementação de vitamina D junto à pirâmide alimentar deles pelo fato de a população americana ter grande chance de ser deficiente em vitamina D (tanto pela baixa exposição solar, quanto pela baixa ingestão de alimentos fontes).(5)  

A principal fonte natural do precursor D2 é a síntese pelo corpo quando a pessoa se expõe à radiação solar. Entretanto, esta síntese varia de acordo com fatores geográficos, faixa etária, pigmentação da pele e uso prolongado do filtro solar.(6,7) O uso do protetor solar reduz em até 95% a produção de vitamina D, uma vez que ele bloqueia de forma eficiente a radiação UVB. (8) O grau de pigmentação da pele é outro fator limitante para a produção de vitamina D, uma vez que peles negras apresentam limitação à penetração de raios ultravioleta. (9) Em pessoas idosas a síntese é menor.  

Para que ocorra a síntese de quantidade adequada do precursor D2 é suficiente a exposição de braços e pernas, sem o uso do protetor solar, por cerca de 5 a 30 minutos entre o horário de 10h às 15h, duas vezes por semana. (10) A luz solar é composta por diversos tipos de radiação, sendo os raios ultravioletas do tipo B (UVB) responsáveis por promover a síntese desta substância.

Após a pré-vitamina D2 ser sintetizada pela pele ou ingerida por meio dos alimentos, ela vai para a circulação sanguínea e, ao passar pelo fígado, recebe uma hidroxila no carbono (25). Daí volta para a circulação e, ao passar pelos rins, recebe outra hidroxilação, agora no carbono 1, sendo assim formada a 1-alfa,25-dihidroxi-vitamina D (ou calcitriol), que é a forma ativa da Vitamina D. Esta forma ativa vai para diversos locais no organismo exercer as suas funções: no intestino, promover a absorção de cálcio; nas células do sistema imune etc. A Figura 1 ilustra as fontes, síntese e funções da vitamina D.



A emissão da radiação UVB coincide com a emissão da radiação UVA (ultravioleta tipo A), sendo ambos danosos à saúde. Cerca de 4% da radiação que chega à superfície da terra é radiação ultravioleta, composta, aproximadamente, por 96% de UVA e 4% de UVB.(11,12) Por este motivo, tem havido intensa recomendação para uso de protetor solar e, ou evitar o sol neste horário. Com isso, por um lado, evita-se a incidência de certos problemas de pele. Mas, por outro, há menor produção de vitamina D pelo organismo, havendo até casos de síntese insuficiente desta vitamina. Este fato chamou a atenção dos pesquisadores devido aos problemas relacionados com sua deficiência, visto que pesquisas identificaram que há pessoas com níveis de vitamina D no sangue abaixo do ideal mesmo em países tropicais e ensolarados como o Brasil. Isso indica que estão ingerindo quantidade insatisfatória desta vitamina e, ou se protegendo demasiadamente do sol.(13)

Quando a pré-vitamina D é sintetizada pelo organismo não há risco de intoxicação porque quando seu nível na pele atinge um patamar elevado ela começa a ser degradada pela própria luz solar. A intoxicação devido à ingestão por alimentos enriquecidos é polêmica. Alguns autores consideram que há necessidade de ingestão muito elevada para que ocorram problemas. Outros consideram o risco mesmo com baixa ingestão.  O certo é que, se ingerida em excesso, pode causar náuseas, vômitos, perda de apetite e calcificação em locais impróprios no organismo, por exemplo fígado, rins e outros locais não ósseos. Com base em sua toxidez é que os órgãos internacionais de saúde são cautelosos em recomendar a ingestão de quantidade mais elevada desta vitamina. Sua suplementação oral só pode ser feita com prescrição médica após exame comprovando níveis sanguíneos baixos.
Portanto, se proteger do sol sim, mas sem excesso!

Referências

1. Ross A.C., Manson J.E., Abrams S.A., Aloia J.F., Brannon P.M., Clinton S.K., et al. (2011).The 2011 report on dietary reference intakes for calcium and vitamin d from the institute of medicine: what clinicians need to know. J. Clin. Endocrinol. Metab, 2011. (1):2010-2704
2. Holick, M.F. Vitamina D (capítulo 20) in Shils, M.E.; Shike, M.; Ross, A.C.; Caballero, B.; Cousins, R.J. Nutrição Moderna na Saúde e na Doença. 2ª Ed. Manole: São Paulo. 2009. 2222p.
3. Nimptsch K., Platz E.A., Willett W.C., Giovannucci E. Association between plasma 25-OH vitamin D and testosterone levels in men. Clinical endocrinology, 2012. 77(1):106-112
4. Pils S, et al. Effect of Vitamin D Supplementation on Testosterone Levels in Men. Hormone and Metabolic Research.  2015, S30.
5. School Of Public Health Food Pyramids and Plates: What Should You Really Eat? Disponível em http://www.hsph.harvard.edu/nutritionsource/pyramid-full-story/. Data de acesso: 26/10/2015.
6. Bandeira F. et al . Vitamin D deficiency: a global perspective.Arq Bras Endocrinol Metab. 2006. 50(4):640-646.
7. Tsiaras et al. Factors Influencing Vitamin D Status. Acta Derm Venereol.2011 Mar;91(2):115-24
8. Tangpricha V., Turner A.,Spina C,,Decastro S.,Chen T.C. & Holick M.F. Tanning is associated with optimal vitamin D status (serum 25-hydroxyvitamin D concentration) and higher bone mineral density. Am. J. Clin. Nutr. 2004; 80: 1645-1649.
9. Bringhurst FR, Demay MB, Kronenberg HM. Hormones and Disorders of Mineral Metabolism. In: Kronenberg HM, Melmed S, Polonsky KS, Larsen PR editors. Williams Textbook of Endocrinology, 11 ed. Philadelphia: Elsevier, 2008.
10. Holick MF. Vitamin D deficiency. N. Engl J. Med, 2007. 266–281
11. Silva A.A. Medidas de radiação solar ultravioleta em Belo Horizonte e saúde pública .Revista Brasileira de Geofísica (2008) 26(4): 417-425.
12. INIRC (International Non-Ioning Radiation Committee).Review of concepts, quantities, units and terminology for non-ionizing radiation protection. Health Phys., 1985. 49: 1329-1362.
13. Peters BSE, dos Santos LC, Wood MFRJW, Martini LA. Prevalence of Vitamin D Insufficiency in Brazilian Adolescents. Ann. Nutr. Metab. 2009;54:15–21

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Coluna Nutrição - Néctar! Afinal, que bebida é essa?





Néctar!  Afinal, que bebida é essa?

Karla Silva Ferreira e Luiz Fernando Miranda da Silva

Se indagarmos às pessoas o que elas pensam que seja a bebida “néctar” as respostas são, invariavelmente, relacionadas com produto de boa qualidade, benéfico para a saúde e saudável.... um néctar dos deuses!  Isso decorre do fato deste termo ser associado ao néctar produzido pelas plantas e utilizado pelas abelhas para a fabricação do mel. Na verdade, “néctar” é um produto açucarado secretado pelos vegetais através de glândulas especializadas.

Uma interessante e inteligente estratégia de marketing foi a denominação de néctar para uma categoria de bebidas que, até a presente data, não necessita ter sequer 50% de fruta. É exceção no comércio um néctar com mais que 50% de fruta ou seu suco. A Figura 1 ilustra uma embalagem de néctar na qual consta a porcentagem de suco.



Diante da oferta de bebidas industrializadas com a denominação “Nectar”, o Ministério da Agricultura estabeleceu os critérios para sua composição e o definiu como: “néctar” é a bebida não fermentada, obtida da diluição em água potável da parte comestível do vegetal ou de seu extrato, adicionado de açúcares, destinada ao consumo direto. O néctar pode ser gaseificado ou não, pode ser constituído por uma única fruta ou ser misto”1.

Os néctares de laranja e de uva eram os que teriam maior quantidade de fruta, mínimo de 50%. Entretanto, as Instruções Normativas que estabeleciam estas quantias foram revogadas antes de entrarem em vigor (2,3). A legislação atual do Ministério da  Agricultura4 dispõe que o néctar de laranja e o néctar de uva deverão conter uma quantidade mínima de suco da respectiva fruta, conforme a seguir:

► 30% partir da publicação desta Instrução Normativa, portanto, a partir de 12 de setembro de 2013;
► 40% partir de 31 de janeiro de 2015;
► 50% a partir de 31 de janeiro de 2016.

As quantidades mínimas de suco ou polpa de fruta, teores de açúcares e de vitamina C nos néctares de outras frutas são também determinados por legislação específica5 do Ministério da Agricultura, conforme mostrado na Tabela 1. Observe que a quantidade de fruta não precisa ser maior que 40% em nenhum deles.  As quantidades de vitamina C são estabelecidas apenas para os sucos de acerola, goiaba e caju, que são frutas ricas nesta vitamina. Por exemplo, a polpa de acerola tem, aproximadamente, 623 mg/100 de vitamina C, a de caju 119 mg/100 g e a goiaba 80 mg/100 g6. Portanto, um suco preparado com metade de fruta e metade de água teria bem mais vitamina C que o mínimo estabelecido pela nossa Legislação para o Néctar destas frutas.



Os néctares de outras frutas ou vegetais, e os néctares mistos, devem ter, no mínimo, 30% da parte comestível do respectivo vegetal ou fruta ou no mínimo 20% no caso de vegetais muito ácidos ou com sabor muito forte (4).

Na tentativa de informar um pouco mais o consumidor, a legislação estabeleceu que as indústrias devem informar a quantidade de suco colocada nos néctares. Esta norma entrou em vigor a partir de março de 2015. Figura 2.




A oferta de néctares tem aumentado assustadoramente. Quem atentar para as prateleiras dos supermercados observará que há setores somente com néctares. Em alguns supermercados é até difícil encontrar suco natural. O preço do litro dos néctares é bem mais atrativo. Normalmente a metade ou até menos da metade do preço do litro do suco da mesma fruta. Esta discrepância no preço é um fator decisivo para a preferência dos consumidores pelos néctares. Associado a isso se tem a atratividade do termo “néctar” e a desinformação do consumidor com relação ao valor nutritivo do produto (7). Por isso é importante alertar o consumidor que se ele comprar um suco integral e diluí-lo terá um produto mais saudável e com preço similar ao do néctar.

Os profissionais de saúde, as organizações internacionais e nacionais, inclusive o Ministério da Saúde ,recomendam o consumo diário de frutas. Embora os néctares sejam derivados das frutas, perdem grande parte do seu benefício. Quando adoçados elevam a ingestão de açúcares e por serem coados e diluídos fornecem menor quantidade de nutrientes.

A ingestão elevada de açúcar está associada a diversos problemas de saúde: diabetes tipo II, obesidade, hipertensão arterial, doença renal crônica, níveis sanguíneos elevados de ácido úrico e, provavelmente, danos no cérebro causando prejuízo na  memória e demência precoce (7,8,9,10,11). A American Heart Association recomenda a redução da ingestão de açúcar e estabeleceu como um limite prudente não mais que 25 gramas por dia para mulheres e 37,5 gramas para homens (8).

Passe a observar os rótulos nutricionais e lista de ingredientes dos néctares. Cada copo de 200 ml de néctar light (bebida de baixa caloria) possui entre 6 a 10 gramas de açúcares e os tradicionais entre 20 a 32 gramas de açúcar. Portanto, com um copo de néctar tradicional ou dois de néctar light a pessoa ingere quase o limite de açúcar do dia.

Nos alimentos “in natura”, o total de açúcares (soma dos teores de glicose, frutose e sacarose), raramente ultrapassa 13%. E vem acompanhado de outras substâncias benéficas para a saúde. Por outro lado, os alimentos industrializados ou preparados no domicílio com adição de açúcar raramente possuem menos que 13% açúcares e são menos nutritivos.

A lista de ingredientes fornece informações importantes sobre a composição do alimento. De acordo com a legislação os ingredientes colocados no alimento devem ser listados em ordem decrescente de quantidade, isto é, iniciar pelo que é colocado em maior quantidade e finalizar com o que é colocado em menor quantidade. Observe que em todos os néctares a água é o ingrediente majoritário. E em alguns, a quantidade de açúcar é maior que a de suco ou polpa de fruta. Figuras 3 e 4.






Além disso, observamos dois aspectos na comercialização dos néctares que induzem o consumidor a erro. São eles:

1) Alguns supermercados colocam na etiqueta do preço o nome “SUCO” ao invés de “NECTAR”. Veja a Figura 5.



2) As embalagens dos néctares são bonitas e mais parecem ser de suco que de néctar. Veja a Figura 6.




Em termos de alimentação, a França tem dado bons exemplos. Há tempos vem fazendo forte campanha para que a população melhore a alimentação. Dentre as ações governamentais, com propagandas sobre boa alimentação (aumento do consumo de vegetais e redução  da ingestão de produtos ricos em gordura e sódio) consta também a mudança das cores vivas das redes de fast food (que estimulam a ingestão de alimento) para cores sóbrias. La, uma loja do McDonald´s não é vermelha e amarela, mas verde escura.

Portanto, consumidor brasileiro, vamos escolher melhor nossos alimentos.  Leiam os rótulos dos alimentos. E Néctar? não, obrigada!

Referências bibliográficas

1. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento/MAPA: Regulamento da Lei  8.918 de 14 de julho de 1994. O registro, a padronização, a classificação, a inspeção e a fiscalização da produção e do comércio de bebidas obedecerão às normas fixadas pela Lei no 8.918, de 14 de julho de 1994, e pelo disposto neste Regulamento. Exceto os vinhos, o vinagre, o suco de uva e as bebidas alcoólicas derivadas da uva e do vinho. 1994.
2. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento/MAPA: Instrução Normativa 21 de 27 de agosto de 2012. Fixar a quantidade mínima de cinquenta por cento de suco de laranja no Néctar de Laranja. Revogada pela Instrução Normativa 42 de setembro de 2013. 2012, a.
3. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento/MAPA: Instrução Normativa 24 de 30 de agosto de 2012. Fixar a quantidade mínima de cinquenta por cento de polpa ou suco de uva no Néctar de Uva. Revogada pela Instrução Normativa 42 de setembro de 2013. 2012, b.
4. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento/MAPA: Instrução Normativa 42 de 11 de setembro de 2013. Alterar o art. 3º da Instrução Normativa nº 12, de 04 de setembro de 2003, sobre quantidade de suco de laranja e de uva em néctares e acrescentar o art. 3ºB sobre obrigatoriedade da declaração das quantidades de frutas nos néctares. 2013.
5. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento/MAPA: Instrução Normativa 12 de 04 de setembro de 2003. Aprovar o Regulamento Técnico para Fixação dos Padrões de Identidade e Qualidade Gerais para Suco Tropical; os Padrões de Identidade e Qualidade dos Sucos Tropicais de Abacaxi, Acerola, Cajá, Caju, Goiaba, Graviola, Mamão, Manga, Mangaba, Maracujá e Pitanga; e os Padrões de Identidade e Qualidade dos Néctares de Abacaxi, Acerola, Cajá, Caju, Goiaba, Graviola, Mamão, Manga, Maracujá, Pêssego e Pitanga, constantes dos Anexos I, II e III, respectivamente, desta Instrução Normativa. 2003a.
6. TABELA BRASILEIRA DE COMPOSIÇÃO DE ALIMENTOS -TACO. (2006) Tabela Brasileira de Composição de Alimentos/UNICAMP: http://www.unicamp.br/nepa/taco em 23/12/2009 página mantida pela UNICAMP.
7. Claro, RM; Levy, RB; Popkin, BM; Monteiro, CA. Sugar-Sweetened Beverage Taxes in Brazil. American Journal of Public Health, 2012, v 102, p 178-184.
8. Johnson RK, Appel LJ, Brands M, et al. Dietary sugars intake and cardiovascular health: a scientific statement from the American Heart Association. Circulation. 2009, v 120, p 1011–1020.
9. Karalius, VP; Shoham, DA. Dietary Sugar and Artificial Sweetener Intake and Chronic Kidney Disease: A Review. Advances in Chronic Kidney Disease, 2013, v 20, p 157-164.
10. Stephan, BCM; Wells, JCK; Brayne, C; Albanese, E; Siervo,M. Increased Fructose Intake as a Risk Factor For Dementia. J Gerontol A Biol Sci Med Sci., 2010, v 65, p 809-814.
11. Thornley, S; Tayler, R; Sikaris, K. Sugar restriction: the evidence for a drug-free intervention to reduce cardiovascular disease risk. Internal Medicine Journal, 2012, v 4, p 46-58.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Coluna Nutrição: Alimentos transgênicos




Alimentos transgênicos: até onde vai a autonomia do consumidor brasileiro em fazer sua escolha?

André Rodrigues da Costa e Karla Silva Ferreira

Os alimentos transgênicos são aqueles derivados de organismos vegetais geneticamente modificados, ou seja, que foram alterados pelo homem a fim de expressar uma característica desejada do ponto de vista agronômico ou nutricional. Em termos práticos, a planta passa a produzir ou conter alguma substância que não apresentaria naturalmente (3).

Esses alimentos estão cada vez mais presentes em nosso cotidiano. Dentre os mais comercializados estão os originados de grãos, principalmente milho e soja. Há, ainda, em outros países, hortaliças transgênicas como batata inglesa e tomate (4;6).






Além do impacto ambiental potencialmente imprevisível do cultivo de transgênicos, seu efeito na saúde humana tem sido motivo de divergências no meio científico. Foram relatados casos de hipersensibilidade e reações alérgicas devido ao consumo de soja e milho transgênicos, além do risco de propagação do transgene (parte genética modificada) para outras variedades e, ou espécies, o que torna ainda mais imprevisíveis as consequências do uso desses organismos (6;8;10).

Em 2012, pesquisadores da Universidade de Caen, na França, publicaram um estudo em que observaram maior incidência de tumores e menor expectativa de vida em ratos alimentados com uma variedade de milho transgênico, mais especificamente a variedade NK603, de patente da empresa americana Monsanto. Os cientistas analisaram por dois anos os efeitos na saúde de ratos e concluíram que os ratos alimentados com este milho transgênico apresentaram maior tendência ao desenvolvimento de tumores do que os ratos alimentados com milho não transgênico. Os resultados do estudo foram contestados e o artigo foi retirado do periódico científico Food and Chemical Toxicology (12). Porém, em 2014, o artigo foi republicado em outra revista científica (Enviromental Sciences Europe), sendo mantidas suas conclusões sobre os prejuízos à saúde dos ratos, provocados pelo milho NK 603 e pelo pesticida Roundup utilizado na cultura, também de patente da empresa Monsanto (13). Em 2014, outra variedade de milho transgênico (MON 810), resistente a insetos e pertencente à Monsanto, teve o cultivo definitivamente proibido na França. Também pesam sobre o MON 810 evidências de toxicidade a mamíferos (1;15).

No Brasil são liberados para plantio e comercialização soja, algodão e milho transgênicos, inclusive as variedades NK 603 e MON 810. Recentemente, foi liberado também o cultivo de eucalipto transgênico. Segundo a empresa responsável, o eucalipto Futuragene possui maior produtividade e não causa danos ao meio ambiente. Porém, diversos órgãos ligados à agricultura familiar assinaram um manifesto em que pedem a retirada de todos os pedidos de liberação de eucalipto transgênico na CTNBIO, órgão responsável pela liberação de produtos transgênicos. Estes grupos alegam que o cultivo do eucalipto transgênico acarreta consequências indesejáveis, dentre eles a contaminação de mel orgânico, uma vez que as abelhas levariam pólen transgênico às colmeias e a outras variedades de eucalipto. Isso prejudicaria os produtores de mel orgânico, que poderiam perder a certificação do produto devido à presença de transgenes. Vale lembrar que o cultivo de árvores transgênicas não é permitido em nenhum outro país do mundo (2;5;9;14).

Em vários aspectos, o Brasil tem ido na contramão das tendências de alguns países, principalmente da União Europeia, na cautela do uso e plantio de transgênicos. Neste ano, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei 4148/2008, que desobriga indústrias de imprimirem no rótulo o “T” maiúsculo com destaque em amarelo, que facilita ao consumidor identificar os alimentos que contêm transgênicos.  O texto foi enviado para o Senado. Se aprovado, a informação da presença de qualquer ingrediente de origem transgênica em nível superior a 1% no alimento constará no rótulo em letras no tamanho especificado na legislação existente, porém sem destaque especial, o que tornará ainda mais difícil sua identificação pelos consumidores (1;3;7).





A responsabilidade na liberação para produção e comercialização de produtos transgênicos deve ficar acima de qualquer interesse econômico, seja ele de empresas ou de países produtores. O uso de transgênicos na agricultura e na alimentação deveria ser permitido apenas após conclusões cientificamente embasadas e incontestáveis de que não oferecem risco à saúde e ao ambiente. E ainda assim, este tipo de produto deve ser devidamente identificado para garantir o direito de escolha do consumidor.

Referências:

1. AFP. França proíbe definitivamente milho transgênico da Monsanto. Revista Exame, 05/05/2014. Disponível em:
<http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/franca-proibe-definitivamente-milho-transgenico-da-monsanto> Acesso em 02/09/2015.
2. BENTO FILHO, W. Brasil é o primeiro país a liberar plantio de eucalipto transgênico. Correio Braziliense, 10/04/2015. Disponível em:<http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2015/04/10/internas_polbraeco,478871/brasil-e-o-primeiro-pais-a-liberar-plantio-de-eucalipto-transgenico.shtml> Acesso em 20/07/2015.
3. BIOSSEGURANÇA E PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO O caso da França e da União Européia Gilles Ferment MDA Brasília, 2008 Ferment, Gilles. Biossegurança e princípio da precaução: o caso da França e da União Européia / Gilles Ferment. -- Brasília: MDA, 2008. 52 p.; 22 cm. -- (Nead Estudos; 22).
4. CARRINGTON, C. M. S.; GREVE, L. C.; LABAVITCH, J. M. Cell wall metabolismo in ripening fruit. VI. Effect of antisense polygalacturonase gene on cell wall changes acompanying ripening in transgenic tomatoes. Plant Physiol. V. 103, p 429-434, 1993, citado por
5. Em: < http://www.ctnbio.gov.br/index.php/content/view/12482.html> Acesso em 02/09/2015.
6. FINARDI, F.F. Plantas transgênicas e a segurança alimentar. In: REUNIÃO ANUAL DA SBPC, 51. 1999, Porto Alegre. Palestra apresentada no Simpósio
“Plantas Transgênicas: da Genética aos Alimentos. Porto Alegre : SBPC, 1999. 8p.
7. LIMA, G. Aprovado projeto que dispensa símbolo da transgenia em rótulos de produtos. Câmara Notícias, 28/04/2015. Disponível em:< http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/CONSUMIDOR/486822-APROVADO-PROJETO-QUE-DISPENSA-SIMBOLO-DA-TRANSGENIA-EM-ROTULOS-DE-PRODUTOS.html> Acesso em 02/09/2015.
8. LOSADA, A. O.; FONSECA, C. A. G. Alimentos transgénicos y alergenicidad. Rev. Fac. Med., Bogotá, v.55, p.251-269, 2007.
9. NASSAR, N. Eucalipto transgênico representa um risco à saúde pública. UnB Agência, 31/03/2015. Disponível em:<http://www.unb.br/noticias/unbagencia/artigo.php?id=819>. Acesso em 20/07/2015.
10. NODARI, R. O.; GUERRA, M. P. Transgenic plants and their products: effects, risks and food safety (Biosafety of transgenic plants). Rev. Nutr., Campinas, 16(1):105-116, jan./mar., 2003.
11. PADGETTE, S.R., TAYLOR, N.B., NIDA, D.L., BAILEY, M.R., MACDONALD, J., HOLDEN., L.R., FUCHS, R.L. The composition of glyphosate-tolerant soybean seeds is equivalent to that of conventional soybeans. Journal of Nutrition, Philadelphia, v.126, n.3, p.702-716, 1996.
12. SERALINI G. E.;   CLAIR E.  ; MESNAGE R. ; GRESS, S.  ; DEFARGE N.; MALATESTA, M.;  HENNEQUIN D.;   VENDÔMOIS, J. S. RETRACTED: Long term toxicity of a Roundup herbicide and a Roundup-tolerant genetically modified maize. Food and Chemical Toxicology. v.50, Issue 11, p.4221-4231, novembro 2012.
13. SERALINI G. E.;   CLAIR E.  ; MESNAGE R. ; GRESS, S.  ; DEFARGE N.; MALATESTA, M.;  HENNEQUIN D.;   VENDÔMOIS, J. S. Republished study: long-term toxicity of a Roundup herbicide and a Roundup-tolerant genetically modified maize. Environmental Sciences Europe, Caen, v.26:14, p.1-17, 2014.
14. TOKARNAIA, M., AMADO, A. Para professor da USP, liberação do eucalipto transgênico é um erro. Portal EBC, 09/04/2015. Disponível em:< http://www.ebc.com.br/tecnologia/2015/04/para-professor-da-usp-liberacao-do-eucalipto-transgenico-e-um-erro>. Acesso em: 20/07/2015.
15. VENDOMOIS, J. S.; ROULLIER, F.; CELLIER, D.; SÉRALINI, G. E. A Comparison of the Effects of Three GM Corn Varieties on Mammalian Health. International Journal of Biological Sciences, Paris, v.5, p.706-726, 2009.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Coluna Nutrição - Álcool: a dose faz toda a diferença




Álcool: a dose faz toda a diferença

Luiz Fernando Miranda e Karla Silva Ferreira

O consumo de bebidas alcoólicas envolve razões culturais, sociais e econômicas, mas quando o assunto é saúde, o álcool, se ingerido em excesso, pode causar mais dano corporal do que qualquer outra droga, sendo tóxica ao sistema digestório, fígado, pâncreas, cérebro, sistema cardiovascular, células sanguíneas e ao feto (1). Em 2014, a Organização Mundial da Saúde publicou o mais recente relatório mundial sobre consumo alcoólico no mundo, indicando que o consumo médio global é de 6,2 litros de puro álcool per capita/ano, causando pelo menos 3,3 milhões de mortes anuais, principalmente aos homens (7,6% das mortes aos homens contra 4% das mulheres) (2).

As quatro doenças mais atribuídas à ingestão de álcool são o câncer, doenças cardiovasculares, neurológicas e gastrointestinais (2). No Brasil, o câncer já é a segunda maior causa de morte (7), e o álcool é grande fator de risco para o surgimento do câncer de boca, faringe e, sobretudo, de esôfago, que é o terceiro tipo de câncer de maior malignidade (8). Nas células da cavidade oral, enzimas do próprio indivíduo e de bactérias bucais (álcool desidrogenases) convertem o álcool em acetaldeído, substância que possui ação carcinogênica (10, 11). Portanto, quanto pior a higienização bucal em presença de álcool, maior o efeito carcinogênico em longo prazo. O álcool também tem ação direta ao surgimento do câncer pelo fato de matar células superficiais da região oral, faríngea e esofágica, gerando com isso, em longo prazo, maior renovação celular e risco de mutação (12, 13), além de comprometer a capacidade de reparo do DNA às mutações (14).

No Brasil, o consumo de bebidas alcoólicas é mais frequente entre indivíduos com idade entre 18 e 34 anos (22% da população) (15). Em muitas festas universitárias, raves, boates e outras, são comuns notícias de intoxicação alcoólica. Alguns estudos mostram que o ponto de corte para definir consumo abusivo de álcool é de no mínimo 30 g de etanol por dia (4, 5, 6)  Na tabela abaixo são listadas algumas bebidas e a quantidade das mesmas que contém 30 gramas de etanol. A dose de 60 g diária já configura risco de cirrose (15).



Vamos percorrer agora o caminho que o álcool faz no corpo após uso abusivo em uma festa universitária:

Um jovem, o Ricardo, alimenta-se pouco e sai para a festa por volta de 23h. Chegando ao local, ele compra uma bebida contendo 150 ml de vodca (55 g de álcool) e começa a tomar. Em contato com a boca, o álcool começa ser absorvido pela mucosa por difusão simples, e ao ser deglutido, continua sua absorção no esôfago e estômago. Estes três locais absorvem 20% do álcool presente na bebida. Com o estômago contendo pouco alimento, o álcool chega ao intestino com mais rapidez, local onde o restante do álcool ingerido termina de ser absorvido. Minutos depois, ao alcançar a corrente sanguínea, o álcool se espalha pelo corpo.... cérebro, rins, pulmão, fígado etc.

Já são 3 da manhã e, ainda sem se alimentar, Ricardo continua ingerindo álcool e é tomado pelo sono. Isto ocorre porque quando chega ao cérebro, o etanol estimula a liberação de GABA (ácido gama-aminobutírico), que induz ao sono e tem ação ansiolítica, além de provocar aumento de dopamina cerebral, molécula que resulta na sensação de prazer e estimula a busca continuada pelo álcool, ainda que acima da capacidade de metabolização pelo corpo. A  capacidade de um indivíduo sadio em metabolizar o álcool não ultrapassa 180 g de etanol/dia, com velocidade de até 200 mg/Kg/hora (3).

Embora se concentre mais no cérebro, rins e pulmões, é no fígado que a maior parte do etanol ingerido é metabolizado. Nas células deste órgão, o etanol é convertido em acetataldeído (no citoplasma das células) e este, em ácido ácetico (nas mitocôndrias), gerando grande quantidade de NADH+H+ (vide reação em figura 1) (16). As moléculas de NADH+H+ formadas no citoplasma impedem a síntese de glicose.


O fígado é o responsável por normalizar os níveis de glicose no sangue quando o indivíduo não está se alimentando de carboidrato. Na ausência de carboidratos, o fígado forma glicose a partir dos aminoácidos das proteínas. Entretanto, o excesso de NADH+H+ bloqueia a formação de uma substância intermediária entre os aminoácidos das proteínas e a glicose (a transformação do malato em oxaloacetato – vide Figura 2). Além disso, o NADH+H+ também reage com o piruvato produzido pelo metabolismo da glicose pré-existente no corpo e forma ácido láctico. Em condições normais, o ácido láctico é convertido em glicose no fígado. Porém, com excesso de etanol este órgão não consegue metabolizar o ácido láctico em tempo hábil, que se acumula no sangue causando acidose.



Figura 2. Ilustração esquemática pela qual se observa que o excesso de NADH+H+ resulta no impedimento da síntese de glicose por meio do oxaloacetato (gliconeogênese), e formação forçada do piruvato e ácido láctico a partir da glicose, ocasionando depleção de glicose na célula e inibição de sua síntese. Por horas sem nutrição, isto resulta em hipoglicemia.

Já por volta de 5h30 da manhã, Ricardo já se encontra de mau humor devido ao baixo teor de cortisol e glicose no sangue (<50 mg/ 100 mL de sangue/hipoglicemia) (16), a visão fica turva, a sudorese é intensa e o rapaz desmaia. Se não fosse levado ao hospital em pouco tempo, Ricardo poderia regredir para coma alcóolico e/ou ter parada cardiorrespiratória em função da acidose láctica (excesso de lactato no sangue).  O coma ocorre quando a glicose sanguínea cai para 30 mg de glicose/ 100 mL de sangue (17) ou 0,3 g de álcool/ 100 mL de sangue (16). A morte pode ocorrer quando o teor de álcool atinge 0,5 g / 100 mL de sangue (16).

Além da hipoglicemia, Ricardo já está desidratado. O álcool inibe a liberação do hormônio antidiurético, que promove a reabsorção de água pelos rins. Sendo assim, há maior perda de água pela urina e dá a famosa “ressaca”. Se a bebida for associada ao consumo de cafeína encontrada em “energéticos” (ler matéria sobre suplementos), a perda de água é ainda maior. O macete de observar o grau de hidratação pela cor da urina (quanto mais amarela maior chance de desidratação) não é válido quando se ingere diurético (ex. álcool).

A ingestão de bebidas “fracas” também causa desidratação, principalmente quando ingeridas em grande quantidade, como a cerveja. Apesar de ter muita água em relação à quantidade de álcool, a presença do álcool faz com que a perda de líquido seja maior do que a que é ingerida. Neste sentido, aproveitamos para fazer um alerta do perigo de se beber muita cerveja sem alimentos (incluindo água) após um “joguinho” de futebol.

Continuando... Enquanto Ricardo é medicado, seus amigos que não ficaram tão mal e insistem em ir dirigindo alcoolizados para casa, são parados pela blits policial que atesta o consumo alcoólico (18). No teste do bafômetro, é detectado o álcool que é eliminado pelos pulmões. Em torno de 10% do álcool ingerido é eliminado pelos pulmões, rins e pele (16).

O fato de Ricardo ter sido vítima de intoxicação pelo álcool não significa que o rapaz seja alcoolista. O alcoolista é aquele que ingere álcool cronicamente a ponto de alterar seu comportamento social e lhe causar prejuízo financeiro e síndrome de abstinência, tratando-se de uma enfermidade progressiva, que leva em média 5 a 10 anos para se instalar (3). Nestes casos, a ingestão crônica de álcool pode levar à necrose hepática em função das lesões teciduais causadas pelo acúmulo de acetaldeído nas células. A inflamação irreversível do fígado é denominada cirrose hepática.

O álcool também inibe a quebra de gordura no fígado, ao mesmo tempo em que estimula a sua síntese. O ato de ingerir álcool em grandes quantidades e com muita frequência ocasiona acúmulo de gordura hepática (esteatose), o que também reduz a eficiência do órgão. Os alcoolistas também tendem à deficiência nutricional em função da substituição de refeições por álcool e também pelo etanol prejudicar a absorção de vitaminas (principalmente do complexo B) e elevar excreção de minerais (ex. cálcio, zinco, magnésio). Assim, o funcionamento cognitivo, síntese de massa muscular e mineralização óssea podem ficar comprometidos.

O excesso de gordura no fígado, porém, difere do acúmulo de gordura abdominal. Não existe estudo que comprove que a ingestão de álcool por si só seja responsável pelo aumento da circunferência abdominal, a famosa “barriga de chope”. A causa da adiposidade é multifatorial e gerada quando a obtenção de energia por meio dos alimentos é superior à energia gasta pelo corpo diariamente. Neste caso, para determinar o total de energia obtida pelos alimentos, a ingestão de álcool deve ser computada, uma vez que 1 g de etanol gera ao corpo 7 Kcal.  A ingestão de 100 ml de vodca, por exemplo, é equivalente a 322 Kcal.

Beber álcool em doses não abusivas pode promover benefícios à saúde?

Há uma linha tênue que separa os benefícios e malefícios causados pelo consumo de álcool (18). Segundo a American Dietetic Association (19), o consumo moderado reduz o risco de doenças cardiovasculares pela redução do nível de LDL-colesterol no sangue (popularmente conhecido como mau colesterol) e outros fatores ainda não muito bem esclarecidos. A ingestão moderada não deve ultrapassar 15 g ao dia de etanol (equivale, aproximadamente, uma latinha de cerveja ou uma taça com 150 ml de vinho).

Referências

1. World Health Organization. Problemas relacionados com el consumo de alchol, Genebra. Informe técnico. 650. 1980.
2. World Health Organization. Global status report on alcohol and health 2014. Disponível em: http://www.who.int/substance_abuse/publications/global_ alcohol_report/en/. Data de acesso 15/06/2014
3. Reis NT, Rodrigues CSC. Nutrição clínica: Alcoolismo. Ed. Rubio. Rio de Janeiro. 2013. 303p.
4. Moreira LB, Fuchs FD, Moraes RS, Bredemeier M, Cardozo S, Fuchs SC, et al. Alcoholic beverage consumption and associated factors in Porto Alegre, a Southern Brazilian City: a population-based survey. J Studies Alcohol 1996;57:253-9
5. National Institutes of Health. The sixth report of the joint national committee on prevention, detection, evaluation, and treatment of high blood pressure. Washington (DC): NIH; 1997.
6. COSTA, Juvenal S Dias da et al. Consumo abusivo de álcool e fatores associados : um estudo de base populacional . Rev. Saúde Pública. 2004, 38(2):284-291.
7. INCA. Indicadores sociais divulgados pelo IBGE colocam o câncer como segunda maior causa de mortes no Brasil. Disponível em http://www.inca.gov.br/wps/wcm /connect/agencianoticias/site/home/noticias/2010/indicadores_divulgados_ibge_colocam_cancer_como _ segunda maior_causa_+mortes_brasil>. Data de acesso 14/06/2015
8. Hospital de câncer de Barretos. Câncer de esôfago. Disponível em: < http://www.hcancerbarretos.com.br/cancer-de-esofago>. Data de acesso: 14/06/2015.
9. Tilonem J, Homann N, Rautio M, Jousimies-Somer H, Salaspuro M. Role of yeasts in the salivary acetaldehyde production from ethanol among risk groups for ethanolassociated oral cavity cancer. Alcohol Clin Exp Res. 1999;23(8):1409-415.
10. Homann N, Tillonen J, Rintamaki H, Salaspuro M, Lindqvist C. Poor dental status increases acetaldehyde production from ethanol in saliva a possible link to increased oral cancer risk among heavy drinkers. Oral Oncol. 2001;37(2):153-58
11. Homann N, Karkkainen P, Koivisto T, Nosova T, Jokelainen K, Salaspuro M. Effects of acetaldehyde on cell regeneration and differentiation of the upper gastrointestinal tract mucosa. J Natl Cancer Inst. 1997;89(22):1692-697.
12. Maier H, Weidauer H, Zoller J, Seitz HK, Flentje M, Mall G, et al. Effect of chronic alcohol consumption on the morphology of the oral mucosa. Alcohol Clin Exp Res. 1994;18(2):387-97.
13. Mascres C, Joly JG. Histochemical and ultrastructural study of the rat oral mucosa, after chronic administration of alcohol. J Biol Buccale. 1981;9(3):279-95
14. Hsu TC, Furlong C. The role of ethanol in oncogenesis of the upper aerodigestive tract; inhibition of DNA repair. Anticancer Res. 1991;11(6):1995-998
15. Brasil. Ministério da Saúde. Vigitel 2013. Disponivel em: https://biavati.files.wordpress.com/2014/05/vigitel-2013.pdf. Data de acesso: 13/06/2015
16. Braunwald; et al.  Medicina Interna - 2 Volumes - 18ª edição. Editora Artmed, Rio de Janeiro 2014.
17. http://www.progepe.uff.br/sites/default/files/servicos/documentos/folder_informativo_alcoolismo.pdf
18. Jones A; et al. Habitual alcohol consumption is associated with lower cardiovascular stress responses - a novel explanation for the known cardiovascular benefits of alcohol?. Stress: The International Journal on the Biology of Stress. 16 (4): 369-376, 2013.
19. Ferreira MP, Weens s. Alcohol Consumption by Aging Adults in the United States: Health Benefits and Detriments. American Dietetic Association. 1676-1668.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Coluna Nutrição - Suplementos para queimar gordura continuam na moda




Suplementos para queimar gordura continuam na moda


Luiz Fernando Miranda e Karla Silva Ferreira

A maioria dos suplementos vendidos como termogênicos no Brasil contem em sua formulação cafeína, chá verde, vitamina ou mineral como principais ingredientes (1). Os produtos termogênicos são comercializados com a promessa de serem um recurso alimentar destinado à perda de peso, uma vez que, segundo os fabricantes, ao promover a aceleração do metabolismo, aumentaria a queima de gordura corporal. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), entretanto, não reconhece o termo “termogênico” e proíbe qualquer comercialização de produtos com promessa de emagrecimento ou queima de gordura (2).





O único princípio ativo encontrado nas formulações dos termogênicos que a Anvisa reconhece como integrante principal de suplemento é a cafeína, e para isto há regulamentação. A cafeína é estimulante do sistema nervoso central, aumentando o 3,5-AMP-cíclico pela inibição da fosfodiesterase (2). A Anvisa classifica estes produtos como suplementos de cafeína para atletas, destinados a aumentar a resistência aeróbia em exercícios físicos de longa duração. Estes suplementos devem conter entre 210 e 420 mg de cafeína na porção e não podem vir adicionados de nutrientes e outros compostos não nutritivos (3).

Num levantamento realizado com os 10 produtos mais vendidos no Brasil, sete deles (tabela abaixo) continham a cafeína como princípio ativo. Os demais (não tabelados) continham chá verde em quantidade não declarada e vitaminas.

Tabela. Teor de cafeína presente em suplementos comercializados como termogênicos, e quantidades diárias de cafeína recomendadas pelos fabricantes

Pode se observado que quase todos os suplementos continham 420 mg de cafeína por porção, e em 57% dos produtos havia a sugestão de consumo diário acima de 840 mg de cafeína por dia, o que equivale 13,5 xícaras de café expresso ou  1386 ml de café infusão (20 g de pó/250 ml de água)(4). Ou seja, doses elevadas de cafeína, acima de 300 mg/dose para indivíduos não atletas, podem provocar aumento da frequência cardíaca, insônia, crises de ansiedade e até a morte(5). Ainda assim, aqueles com doenças cardiovasculares podem ser sensíveis à ingestão de doses ainda mais baixas de cafeína e o consumo deve ser supervisionado por médico. Segundo a Anvisa, estes produtos foram elaborados exclusivamente para atletas, os quais são mais resistentes aos efeitos adversos da cafeína. Ainda assim, a prescrição de suplementos à base de cafeína, deve ser supervisionada por médico ou nutricionista.

Entre os 10 produtos avaliados, em dois foi declarada a presença da planta Camellia sinensis, como “chá verde”. O chá verde é uma bebida preparada a partir da infusão de folhas desta planta. Estudos evidenciam que o consumo desta bebida seja capaz de promover efeitos termogênicos e perda de peso corporal. Os pesquisadores associam estes efeitos à ação da cafeína e  catequinas (flavonóides) presentes na planta. No entanto, não há consenso sobre a dosagem diária deste chá ou do extrato na redução significativa de peso, mas por meio de estudos (6,7), mostrou-se que o consumo de pelo menos 1 litro diário de chá durante 13 semanas pode gerar em redução de peso em até 1,5 Kg peso corporal.

O Ministério da Saúde alerta a população sobre a presença da substância dimetilamilamine ou dimethylamylamine (DMAA) em alguns suplementos vendidos como termogênicos, pois podem acelerar em demasia os batimentos do coração e causar parada cardíaca e morte. A venda destes suplementos está proibida(8).

REFERENCIAS

1. Silva LFMS. Avaliação de suplementos alimentares para fins especiais. Dissertação (Mestrado em Produção Vegetal) – Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias. Campos dos Goytacazes, RJ, 2010.
2. Shi D, Padgett WL, Daly JW - Caffeine analogs: effects on ryanodine-sensitive calcium-release channels and GABAa receptors. Cell Mol Neurobiol, 2003; 23:331-347.
3. BRASIL. Consulta Pública n. 60, de 13 de novembro de 2008. Regulamento Técnico de Alimentos para Atletas. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 14 nov. 2008
4. Camargo MCR; Toledo MCF. (1998) Teor de cafeína em cafés brasileiros. Ciênc. Tecnol. Aliment. 18 (4) 421-424p
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1. Jurgens TM , Whelan AM , Killian L , S Doucette , Kirk S , E Foy . Green tea for weight loss and weight maintenance in overweight or obese adults.  Cochrane Syst Rev. 2012. 2.
2. Phung OJ; Baker WL; Matthews LJ; Lanosa M; Thorne A; Coleman CI. (2010) Effect of green tea catechins with or without caffeine on anthropometric measures: a systematic review and meta-analysis. Am J Clin Nutr. 91(1):73-81.
3. BRASIL. Agência Nacional de Vigilânia Sanitária. Anvisa alerta para risco de consumo de suplemento alimentar. Disponível em http://s.anvisa.gov.br/wps/s/r/1M8. Data de acesso: 26/04/2015.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Coluna Nutrição - Whey Protein e outros suplementos proteicos



Whey Protein e outros suplementos proteicos

Luiz Fernando Miranda e Karla Silva Ferreira

Suplementos à base de proteína estão entre os mais comercializados no Brasil (1). A razão é que estes produtos podem estar mais diretamente associados ao ganho de músculos, juntamente com os carboidratos. Segundo a legislação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)(2), para que o suplemento possa ser considerado proteico, deve conter proteína de alta digestibilidade, rica em aminoácidos essenciais. Além disso, o produto pronto para consumo deve conter no mínimo 10 g de proteína na porção, devendo corresponder a 50% do valor energético total do produto.
O consumo de proteína é essencial não só para ganho de músculos, mas também para produção de hormônios, enzimas, estrutura celular e de todos os tecidos. Para a população adulta, saudável e não atleta, recomenda-se que 15 a 20% do requerimento energético total do indivíduo seja proveniente de proteína, o que equivale a 75 a 100 g de proteína numa dieta de 2000 Kcal/dia (3) ou ainda 0,8 g/Kg de peso corporal (4). Àqueles praticantes de exercício físico regular, incluindo atletas, a recomendação proteica pode variar de 1,0 a 2,0 g/Kg/peso corporal ao dia (4), dependendo da necessidade energética associada ao tipo de treino. O profissional habilitado para avaliar as necessidades proteicas individuais é o nutricionista.

Quando, no entanto, o indivíduo, seja ele atleta ou não, não consegue ingerir proteína em quantidade adequada por meio dos alimentos convencionais, pode-se recorrer ao consumo de suplementos. Segundo a legislação brasileira, suplemento proteico significa “produto destinado a complementar as necessidades proteicas”(2).

Quando recomendado por nutricionista, o consumidor deve ser orientado para o momento da compra do suplemento, pois muitos se veem perdidos frente a muitas opções de produtos, seja no tipo de proteína, como na forma de consumo, cápsula, comprimido, líquido e pó. No mercado, existem diversas opções de tipos de proteína, prevalecendo as de origem animal. As proteínas são: carne bovina em pó, proteína de soro do leite ou whey protein (derivada do leite), caseína (derivada do leite), albumina (derivada do ovo), colágeno ou gelatina (origem bovina), proteína da soja e proteína da quinoa (origem vegetal). Todas estas opções, com exceção do colágeno e gelatina, são proteínas de alto valor biológico. O colágeno e gelatina, no entanto, além de proporcionarem digestibilidade ruim, contém baixo teor de aminoácidos essenciais. A proteína do soro do leite é a melhor proteína, pois além de sua fácil digestão, contém maior quantidade e variedade de aminoácidos essenciais (6).
Quando no momento da compra, o consumidor deve estar atento às informações nutricionais nos rótulos dos suplementos e avaliar quatro variáveis: qualidade da proteína, preço do produto, teor de proteína na porção e peso líquido total. Observe o caso abaixo.


Após observar a figura acima, qual seria a melhor opção de compra?

Observe que o suplemento B contém mais proteína, é mais barato e possui maior quantidade na embalagem. Isso já seria necessário para a sua escolha? Não. Analise os pontos discutidos a seguir:

O produto A contem somente whey protein e o produto B contém mistura de proteínas. De acordo com a ordem em que são descritos os nomes dos ingredientes, o que vem primeiro significa que está em maior quantidade no produto. Portando, no produto B, a soja é a proteína que, teoricamente, está em maior quantidade, seguida de colágeno e whey protein. Conclui-se, então, que o produto A contém somente proteína de maior qualidade.

Atente-se que o produto A contém mais proteína do que o B, pois a porção do produto B é quase o dobro (60 g do produto para adquirir 30 g de proteína). Supondo que o consumidor consuma duas porções diárias de suplemento, o produto A duraria 24 dias e o produto B duraria 17 dias. Ou seja, embora o suplemento B seja mais barato, além de conter maior quantidade do produto por embalagem, o custo mensal é mais elevado e em sua composição há proteínas de baixo valor biológico. Isso não significa que o mais caro seja sempre melhor. Isso não é uma regra. Algumas vezes, ocorre o contrário. Basta fazer as contas.

No mercado são normalmente encontrados três tipos de whey protein: isolada, hidrolisada e concentrada. A escolha destes confunde muita gente. Mas qual a diferença entre elas?

Não há na legislação brasileira e internacional regulamentações sobre estas definições. Mas pode-se afirmar que, de praxe, a isolada deve possuir somente proteína do soro do leite, sem conter em sua composição outros nutrientes que não sejam proteína. A hidrolisada deve conter somente proteína do soro do leite, no entanto, neste caso, a proteína está mais fragmentada ou hidrolisada (que significa ser de mais fácil digestão). A  concentrada, por fim, deve conter somente proteína do soro do leite, mas pode conter outros nutrientes em sua composição, como carboidrato, gordura, vitaminas e minerais. Estudos mostram que o consumo de whey protein hidrolisada pode resultar em maior ganho de massa muscular em comparação com as demais (5, 7). Todavia, fora dos controles científicos, seguramente, não é possível afirmar qual o melhor produto, pois a forma de consumo, horário e quantidade influenciam no resultado final. Mais uma vez, ressalta-se importância da condução dietética ser dirigida por nutricionista, a fim de maximizar os efeitos.

Tipos de whey protein comercializada: isolada, concentrada e hidrolisada.

Outra pergunta que muita gente faz é: será que a quantidade de proteína ofertada no rótulo do produto condiz com o que realmente existe dentro dele? Fiscalizações realizadas pela Anvisa mostraram que nem todos os fabricantes cumprem o que prometem nos rótulos de seus produtos, e alguns comercializam suplementos com quantidades proteicas bem abaixo do que é propagado (com variação acima de 20%, conforme previsto por norma). Essa prática pode acarretar à empresa advertência, apreensão e inutilização, interdição e ou multa, que pode variar de R$ 2000,00 a R$ 1.500.000,00. Em 2014, a Anvisa analisou 25 marcas de suplementos e proibiu a comercialização de 20, em virtude de tais irregularidades. Os resultados você pode encontrar acessando este link: http://s.anvisa.gov.br/wps/s/r/cW3N.

REFERÊNCIAS

1. SILVA LFM, FERREIRA KS. Segurança alimentar de suplementos comercializados no Brasil. Rev Bras Med Esporte , 2014, 20(5): 374-378. BRASIL. (2008b) Consulta Pública n. 60, de 13 de novembro de 2008. Regulamento Técnico de Alimentos para Atletas. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 14 nov. 2008.
2. BRASIL. Consulta Pública n. 60, de 13 de novembro de 2008. Regulamento Técnico de Alimentos para Atletas. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 14 nov. 2008.
3. Reis NT, Calixto-lima, L. Nutrição Clínica. Bases para prescrição. Rio de Janeiro. Ed. Rubio. 2014. 474p.
4. Campbell B, Kreider RB, Ziegenfuss T, Bounty PL, Roberts M, Burke D, Landis J, Lopez HM, Antonio J. International Society of Sports Nutrition position stand: protein and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition 2007. 4(8):7.
5. Hulmi JJ, Lockwood CM, Stout JR. Effect of protein/essential amino acids and resistance training on skeletal muscle hypertrophy: A case for whey protein. Nutrition & Metabolism 2010, 7(51):2-11
6. Silva LFMS. Avaliação de suplementos alimentares para fins especiais. Dissertação (Mestrado em Produção Vegetal) – Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias. Campos dos Goytacazes, RJ, 2010.
7. Tang JE, Moore DR, Kujbida GW, Tarnopolsky MA, Phillips SM. Ingestion of whey hydrolysate, casein, or soy protein isolate: effects on mixed muscle protein synthesis at rest and following resistance exercise in young men. J Appl Physiol. 2009.107(3):987-92.
8. BRASIL. Agência Nacional de Vigilânia Sanitária. Anvisa proíbe 20 lotes de Suplementos Proteicos para Atletas. Disponível em http://s.anvisa.gov.br/wps/s/r/cW3N. Data de acesso: 28/04/2015.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Coluna Nutrição: Suplementos alimentares



Suplementos alimentares

Luiz Fernando Miranda e Karla Silva Ferreira

A indústria de suplementos alimentares, com exceção dos alimentos funcionais, fatura anualmente mais de 46 bilhões de dólares no mundo (1). Ainda que bastante difundidos nas academias e clubes esportivos, muitos desses produtos são consumidos sem orientação adequada, o que pode resultar em desperdício financeiro e, em alguns casos, efeitos indesejáveis na saúde em função do consumo excessivo. Quando bem orientada, entretanto, a ingestão de suplementos é benéfica, contribuindo para ganho de massa muscular, perda de gordura e aumento de desempenho durante o exercício.

A recomendação de suplemento deve ser realizada, de preferência, por nutricionista, pois a prescrição correta precede de avaliação nutricional e planejamento dietético, que devem estar em consonância com o tipo de exercício praticado, duração e intensidade. Se isso não for feito, o esportista pode perder massa muscular com mais intensidade, engordar e até se sentir mal durante o exercício (tontura, náuseas, vômitos e desmaios).

Existem diversos suplementos alimentares comercializados no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regulamenta e classifica os suplementos de acordo com a finalidade proposta pelo fabricante. São eles:

1) Suplementos hidroeletrolíticos - têm por finalidade a hidratação, diferindo dos demais suplementos pela capacidade de serem mais rapidamente absorvidos, não servindo para a reposição de minerais (3).
2) Energéticos - chamados de hipercalóricos, são a base de pequenos polímeros de glicose (maltodextrina) e fornecem glicose para produção de energia;
3) Suplementos contendo somente cafeína - aceleram o metabolismo, mas não fornecem energia, porque não contêm nutrientes energéticos em sua composição (carboidratos, lipídios e proteínas).
4) Substituidores parciais de refeição (conhecidos como hipercalóricos) - são mais completos, pois podem fornecer proteínas, carboidratos, lipídios, minerais, vitaminas e fibras alimentares. Há shakes no mercado que fornecem quantidade muito baixa de energia, abaixo de 300 Kcal/porção, e por isso não podem ser considerados substituidores de refeição.
5) Produtos à base de creatina - têm a função de melhorar o desempenho em exercícios de curta duração e de alta intensidade (ex.: corrida de 100 metros, musculação), pois fornecem aos músculos, em condição anaeróbica, reserva de fosfato, que culmina em alta carga energética ao músculo para realização do movimento de explosão.
6) Produtos proteicos -  podem ser à base de soja, proteína do soro do leite, caseína, derivados de carne bovina e albumina. Para serem consideradas fontes de proteína, os produtos devem possuir, no mínimo, 10 g de proteína na porção.

Embora estes produtos sejam regulamentados para fins atléticos, muitos indivíduos que não são atletas, mas que praticam exercício físico regularmente e que não se alimentam adequadamente, podem consumir estes suplementos para melhorar o desempenho físico, aumentar os músculos e reduzir a gordura corporal.



Infelizmente, muitas empresas comercializam suplementos com promessas de emagrecimento e hipertrofia muscular. Não existem alimentos que sejam capazes de promover este efeito por si só. Para que haja perda de gordura corporal e/ou ganho de músculos, é necessário que em conjunto seja realizada planejamento dietético que haja alimentação e atividade física adequadas e prática regular de exercício físico. Sendo assim, a ANVISA proibiu expressões veiculadas em propagandas e embalagens de suplementos, tais como: "anabolizantes", "hipertrofia muscular", “massa muscular”, "queima de gorduras", "fat burners", "aumento da capacidade sexual", “anticatabólico”, “anabólico”, equivalentes ou similares.
O uso de substâncias como o dimetilamilamine ou dimethylamylamine (DMAA) e efedrina, que são potentes estimulantes do metabolismo e que podem causar a morte, são proibidas no Brasil.
Devido a variações na composição das matérias prima erros inerentes aos métodos de análise, a ANVISA permite variação de 20% entre a composição informada na embalagem e a composição real do produto.

REFERENCIAS

1. Maughan RJ, King DS, Lea T. Dietary supplements. J Sports Sci. 2004;22(1):95-113
2. BRASIL. Agência Nacional de Vigilânia Sanitária. Anvisa alerta para risco de consumo de suplemento alimentar. Disponível em http://s.anvisa.gov.br/wps/s/r/1M8. Data de acesso: 26/04/2015.
3. BRASIL. (2008b) Consulta Pública n. 60, de 13 de novembro de 2008. Regulamento Técnico de Alimentos para Atletas. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 14 nov. 2008.