segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Coluna Nutrição: Dieta Vegana: um potencial risco à saúde ou melhoria dela?



Dieta Vegana: um potencial risco à saúde ou melhoria dela?


Karina de Oliveira Alves, Karla Silva Ferreira e Luiz Fernando Miranda da Silva


Uma dieta vegetariana é baseada principalmente em frutas, verduras, legumes, oleaginosas, grãos e sementes. Alguns vegetarianos (ovolactovegetarianos) consomem leites e derivados e ovos, porém uma dieta vegana possui maiores restrições. O alimento vegano engloba produtos sem nenhum ingrediente de origem animal e não se limita apenas aos alimentos nos quais os animais precisam ser abatidos. Produtos lácteos, ovos, mel, entre outros não fazem parte de um cardápio vegano. Existe uma considerável ascensão de indivíduos que aderiram essa prática em países industrializados, principalmente em jovens do sexo feminino. Nos últimos anos, nos Estados Unidos houve um aumento do ano de 1997 de 300.000 para entre 2,5 e 6 milhões de veganos em 2012 (1 a 2% da população dos EUA).

A partir desses dados têm-se motivos para acreditar que a inclusão desses produtos no setor alimentício e nos padrões de consumo alimentar continuará a crescer. O veganismo tem ganhado popularidade como opção alimentar saudável e possivelmente terapêutica.

São diferentes as razões para adotar esse estilo de vida, dentre elas são incluídas a preocupação ambiental, aversão alimentar, influência de outras pessoas, preocupação com a ética animal e a saúde. Os dois últimos motivos são os mais prevalentes para a adoção de uma dieta vegana. Os relatos de benefícios da prática vegana para a saúde são bem extensos e documentados em diversos estudos. Essa população específica tende a apresentar menores índices de IMC (Índice de Massa Corporal, que abaixo de 18,5 indica possibilidade de desnutrição e quanto maior que 25 corresponde a maior porcentagem de gordura corporal), menores taxas de colesterol ruim (LDL - lipoproteína de baixa densidade), melhor controle da pressão sanguínea, menores taxas de doenças cardiovasculares e diabetes.

Há também relatos de benefícios da dieta vegana e vegetariana na prevenção de diversos tipos de neoplasias, como o câncer de próstata, estômago e cólon. Portanto, essa dieta pode ter um potencial terapêutico para tratamento de patologias relacionadas à síndrome metabólica e pode também conceder benefícios contra condições inflamatórias como a artrite reumatoide.

Há uma relação entre a dieta e a microbiota intestinal nos indivíduos. Os veganos mostram ter uma microbiota diferente em relação aos onívoros, porém não possui uma distinção muito significativa da microbiota de vegetarianos. O perfil intestinal vegano mostra-se com uma redução de bactérias patogênicas e uma expansão de bactérias protetoras. As condições minimizadas de inflamação podem ser a característica fundamental que associa a microbiota intestinal vegana aos benefícios protetores da saúde. Entretanto, vale ressaltar que os alimentos com maior potencial de fermentação (causar gases) estão no grupo dos carboidratos e devem ser excluídos em casos de extrema e incômoda formação de gases.

Será que pessoas onívoras, que buscam uma alimentação saudável, conseguem atingir os resultados positivos das dietas vegetarianas? Há poucos estudos que comparam rigorosamente os onívoros, vegetarianos e veganos. Deste modo é difícil ponderar se os benefícios atribuídos à dieta vegana podem ser aplicados também à dieta vegetariana ou até mesmo para uma dieta onívora saudável. Entretanto, semelhante às dietas vegetarianas e veganas, dietas que possuem quantidades moderadas de produtos de origem animal podem ser benéficas à saúde. A dieta mediterrânea, por exemplo, é considerada altamente saudável e nutritiva. Nela estão incluídos frutas, verduras, nozes e peixes. É também apontada como preventiva para o surgimento de Diabetes tipo II, algumas doenças neurodegenerativas e neoplasias. A dieta mediterrânea também é destacada por ter um baixo impacto ambiental, bem como a dieta vegana.

O veganismo é capaz de apresentar escolhas não saudáveis, visto que alimentos ricos em açúcares, sal e gorduras “trans” podem ser rotulados como veganos e não apresentar nenhum tipo de benefício para a saúde. Um estudo feito através de uma pesquisa online internacional, constatou que os indivíduos que aderem à dieta por motivos de ética animal tendem a fazer escolhas não saudáveis e aqueles que aderiram ao veganismo para obter melhoras na saúde optam por melhores escolhas alimentares e se atentam para outros comportamentos que influenciam em mais saúde e qualidade de vida.

Embora existam evidências que indiquem benefícios diversos à saúde relacionados à uma dieta vegana, a exclusão de todos os alimentos de origem animal pode acarretar deficiências de micronutrientes importantes, como a vitamina B12, os ácidos graxos ômega-3 EPA (ácido eicosapentaenoico) e o DHA (ácido docosahexaenóico), a vitamina D, o cálcio, o ferro e o zinco. A Figura 1 ilustra um prato típico vegano com a relação das possíveis deficiências nutricionais.



Vitamina B12: os primeiros sintomas da falta de B12 podem ser algo inespecífico, como fadiga e problemas digestórios. A manifestação de sinais neurológicos e hematológicos pode ser sutil.  Uma deficiência de B12 a longo prazo pode ocasionar problemas graves como a anemia perniciosa, acidente vascular cerebral e doenças cardiovasculares. Os veganos possuem concentrações plasmáticas mais baixas de vitamina B-12, o que pode levar a uma deficiência desse micronutriente e maiores concentrações de homocisteína plasmática. Os níveis séricos abaixo de 190 pg/mL estão associados ao risco de deficiência e, por consequência, elevação de homocisteína. A elevação da homocisteína é considerada como fator de risco para doenças cardiovasculares. Para evitar deficiência de B12, a população vegana deve consumir regularmente alimentos fortificados ou tomar suplementos vitamínicos. Nenhum alimento de origem vegetal que não seja fortificado contém quantidade de B12 que possa ser expressiva para que o indivíduo atinja os níveis ideais desta vitamina.

Os seguintes aspectos sobre a vitamina B 12 merecem ser ressaltados: é essencial apenas para animais; é produzida apenas por microrganismos; alguns destes microrganismos produtores de vitamina B12 habitam o intestino dos animais; parte da vitamina B12 produzida no intestino dos animais é absorvida; no caso do ser humano, a quantidade de vitamina B12 produzida pelos microrganismos do intestino não é suficiente para suprir as necessidades desta vitamina B12; alimentos de origem vegetal não possuem naturalmente vitamina B12; indivíduos adultos vegetarianos são mais propensos a desenvolver anemia por deficiência de vitamina B12 dos que as crianças vegetarianas pelo fato de as crianças serem mais descuidadas com os hábitos higiênicos.

Os ácidos graxos ômega-3 EPA e DHA: são importantes para a saúde cardiovascular, ocular e cerebral. As principais fontes destes ácidos graxos são peixes, ovos e vegetais do mar. Os animais, inclusive os seres humanos, conseguem produzir pequenas quantidades destes ácidos graxos a partir do ácido linolênico, encontrado, principalmente, em linhaça, soja, canola, nozes e seus derivados oleosos, tais como os óleos de canola e soja. Entretanto, a quantidade produzida é pequena para produzir os efeitos benéficos que são produzidos quando há ingestão deles já prontos, seja por meio da ingestão de alimentos ou suplementos.

Indivíduos veganos devem consumir regularmente alimentos vegetais ricos em ácido linolênico, como por exemplo sementes moídas de linhaça e nozes, mas também alimentos enriquecidos com EPA e DHA já prontos, tais como alguns tipos de leite de soja e cereais. As pessoas que possui maiores necessidades destes ácidos graxos, como mulheres grávidas e lactantes, podem se beneficiar com a suplementação dos mesmos.

Vitamina D: a forma de vitamina D predominantemente encontrada na dieta dos veganos é a D2, que apresenta menor biodisponibilidade em comparação à D3, que é derivada de produtos de origem animal. A quantidade de vitamina D no corpo desses indivíduos depende da exposição ao sol e da ingestão de alimentos fortificados com essa vitamina.  Para uma ingestão adequada de Vitamina D, alimentos enriquecidos devem ser incluídos na dieta. Nos lugares onde não há disponibilidade de alimentos enriquecidos com vitamina D, a suplementação é recomendada.

Cálcio: as principais fontes alimentares de cálcio são o leite e seus derivados, com exceção da manteiga, e os alimentos enriquecidos. Poucos alimentos vegetais são fontes de cálcio, seja por terem baixos teores de cálcio ou pelo fato de suas porções alimentares serem pequenas. Portanto, cuidados quanto ao aporte de cálcio também devem ser tomados. Fontes alimentares vegetais de cálcio devem ser diariamente incluídas na dieta, como vegetais verdes escuros, tofu e tahine.

Ferro e zinco: os minerais como ferro e zinco precisam ser levados em consideração. É bem conhecido o fato de que o ferro contido nos alimentos de origem vegetal é de baixa absorção e que a ingestão simultânea de vitamina C aumenta sua absorção. Os veganos tem possibilidade de ter ingestão entre adequada e elevada de vitamina C, uma vez que as melhores fontes alimentares de vitamina C são as frutas e hortaliças folhosas.  Entretanto, as concentrações séricas de ferritina (proteína que armazena e transporta o ferro no sangue) de alguns veganos são similares aos de vegetarianos, porém inferiores aos de onívoros. Outra deficiência mineral que pode ser encontrada em veganos é de zinco. A absorção do zinco é prejudicada pela presença de fitatos, substancias comumente presentes nos cereais integrais, são alimentos importantes nas dietas veganas. Por outro lado, os cereais integrais, produtos derivados da soja e leguminosas são fontes de zinco.  Algumas técnicas de preparo dos alimentos, tais como a fermentação (uso de fermento para a fabricação de pães integrais) e deixar o cereal ou a leguminosa de molho contribuem para a redução dos teores de fitatos.

Para auxiliar na escolha de alimentos para uma dieta vegana, são apresentados na Tabela 1 os alimentos que são boas fontes dos nutrientes que costumam estar deficientes neste tipo de dieta.





Uma dieta vegetariana pode ser saudável, mas isso depende dos tipos e quantidades de alimentos que a compõem.  Do contrário, pode ser desequilibrada e levar a deficiências nutricionais, conforme descrito anteriormente. Isso também ocorre com dietas onívoras desequilibradas. Um planejamento alimentar cuidadoso pode fazer com que dietas veganas atendam às necessidades nutricionais além de potencializar a ingestão de substancias benéficos presentes em alimentos de origem vegetal. A orientação de um profissional qualificado em nutrição pode ser essencial nos casos em que a pessoa queira seguir dietas sem riscos de trazer problemas para sua saúde.

Referências Bibliográficas:

BELVOIR MEDIA GROUP. Declaring a vegan diet for your heart health: plant-based diets are beneficial, but require essential nutrients. Heart Advisor. (2013) 16:6.

CASTAÑÉ, S.; ANTÓN, A. Assessment of the nutritional quality and environmental impact of two food diets: A Mediterranean and a vegan diet. Journal of Cleaner Production. (2017) 167:929-937.

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CRAMER, H.; KESSLER, C.; SUNDBERG, T.; LEACH, M.; SCHUMANN, D.; ADAMS, J.; LAUCHE, R. Carachterists of Americans Choosing Vegetarian and Vegan Diets for Health Reasons. Journal of Nutrition Education and Behavior. (2017) 49: 561-567.

GLICKER-BAUER, M.; YEH, M.C. The Health Advantage of a Vegan Diet: Exploring the Gut Microbiota Connection. Nutrients. (2014) 6: 4822-4838.

JASSEN, M.; BUSCH, C.; RÖDIGER, M.; HAMM, U. Motives of consumers following a vegan diet and their attitudes towards animal agriculture. Appetite. (2016) 105: 643-651.

MARSH, K.; ZEUSCHNER, C.; SAUNDERS, A. Health Implications of a Vegetarian Diet: A review. American Journal of Lifestyle Medicine. (2012) 6:250–267.

RADNITZ, C.; BEEZHOLD, B.; DIMATTEO, J. Investigation of lifestyle choices of individuals following a vegan diet for health and ethical reasons. Appetite. (2015) 90: 31-36.

WOO, K.; KWOK, T.; CELERMAJER, D. Vegan Diet, Subnormal Vitamin B-12 Status and Cardiovascular Health. Nutrients. (2014) 6: 13259-3273.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Dieta low carb




Dieta low carb


Suelen Galante Inácio, Sâmela Oliveira Barbosa e Karla Silva Ferreira


A 'dieta low carb” está na moda. Muitas pessoas procuram um nutricionista pedindo uma dieta “low carb”. Afinal, o que é uma dieta low carb? Este tipo de dieta emagrece? Faz bem para a saúde? Pode ser seguida por qualquer pessoa?

Ainda não existe uma definição precisa do que seria uma dieta low carb. Na tradução do termo em inglês, low carb significa baixo carboidrato. Portanto, seria uma dieta com restrição de carboidratos. Na prática, supõe-se que a restrição de carboidratos direcionaria o organismo para utilizar gordura como fonte de energia. Entretanto, para isso ocorrer, a ingestão de carboidratos deveria ficar entre 50-150 gramas por dia (Westman et al., 2007). Por outro lado, alguns estudiosos acreditam que uma dieta com baixo teor de carboidrato seria aquela na qual os carboidratos fornecem menos que 45% das calorias diárias (Brouns, 2018). Por exemplo, em uma dieta com 2000 Kcal a quantidade de carboidrato máxima, para fornecer 45% do valor energético, seria 225 gramas. Lembrando que cada grama de carboidrato fornece 4 Kcal. Portanto, 225 gramas fornecerão 900 Kcal.
É importante salientar que as dietas com menos carboidrato levam à mudança no equilíbrio dos nutrientes, acarretando maior consumo de gordura e de proteínas (Naude et al., 2014), como mostrado na Figura 1.




Embora as dietas low carb não sejam dietas com exclusão completa de carboidratos, os alimentos selecionados para ela são alimentos em geral com baixo teor de carboidratos e elevados teores de gordura ou proteínas. Ressalta-se que não há exclusão do carboidrato, mas moderação do consumo de suas fontes dietéticas. Na Figura 2 são apresentados alimentos usuais em refeições com quantidades normais de carboidrato e refeições low carb.



Nas dietas com restrição de carboidrato, há consumo de todos os queijos, incluindo os amarelos, manteiga, ovos, castanhas, nozes, carnes de todos os tipos, frutas, gorduras e frutas com baixas quantidades de carboidrato. Já na dieta com maior proporção de carboidratos, são incluídas frutas ricas em carboidratos, cereais integrais, raízes, queijos brancos e carnes magras. Observe que, mesmo na dieta low carb, o arroz integral permanece, uma vez que este tipo de dieta não exclui o carboidrato, apenas o reduz. Outros alimentos ricos em carboidratos, tais como feijão, batata, macarrão, aveia etc., podem fazer parte da alimentação de baixo teor de carboidrato, desde que consumidos na quantidade correta.

Dieta low carb e perda de peso

Os estudos sobre dieta low carb e perda de peso apontaram o seguinte:

1) qualquer tipo de dieta que diminua o consumo de energia (calorias) resultará em perda de peso e mudanças favoráveis nos exames e funções orgânicas (Westman et al., 2007). Na prática, as dietas low carb são mais restritas quanto aos tipos de alimentação, o que favorece menor consumo de alimentos e, consequentemente, menor ingestão energética e maior perda de peso, principalmente nas primeiras semanas  ou meses seguindo esta dieta.

2) a adesão prolongada a uma dieta low carb (que é também cetogênica) parece ser difícil. Uma dieta não cetogênica, fornecendo 100-150 gramas de carboidrato por dia, pode ser mais prática e fácil de ser seguida (Brouns, 2018).

3) não há resultados de pesquisas que apoiem a eficácia, a segurança e os benefícios para a saúde das dietas low carb longo prazo (Brouns, 2018).

4) estudo comparando dieta low carb versus dieta com baixo teor de gordura, com a mesma quantidade de calorias, mostrou que estas dietas não apresentam resultados diferentes em relação à perda de peso, pressão arterial, glicemia de jejum, insulina, resistência à insulina e proteína C-reativa. Por outro lado, nas dietas low carb houve maiores reduções nos triglicerídeos e aumento no colesterol HDL (bom colesterol), mas também do LDL (colesterol ruim) (Wycherley et al., 2010).

5) as dietas com restrição de calorias e com quantidades normais ou reduzidas em carboidrato resultaram em similar perda de peso e maior proteção para doenças cardiovasculares, porém não acarretaram diferenças na pressão arterial, LDL, HDL, colesterol total, triglicerídeos e glicemia de jejum (Naude et al., 2014).

Os estudiosos concluíram que as dietas com baixo teor de carboidratos parecem ser tão eficazes quanto as dietas com baixo teor de gordura para a perda de peso, desde que ambas sejam com baixo valor energético. No entanto, os efeitos benéficos à saúde (perda de peso, redução de glicemia e aumento do colesterol bom) e os efeitos negativos (aumento do colesterol ruim) devem ser avaliados individualmente.

Ingestão de proteína e dieta low carb

Quando se propõe uma redução do teor de carboidrato há um aumento proporcional da gordura e da proteína na alimentação. O papel da proteína nesse processo de perda de peso deve ser melhor explorado.

O efeito da dieta low carb ou com alto teor de proteínas foi comparado em um estudo no qual foram administradas dietas com baixa versus normal ingestão de carboidratos e alta versus normal ingestão de proteína. Os resultados demonstraram que, apesar de todas as quatro dietas promoverem a perda de peso, uma quantidade relativamente alta de proteína apresentou melhores resultados que a baixa ingestão de carboidratos. Até mesmo uma dieta com quantidade normal de carboidratos, mas alta em proteína mostra melhor manutenção de peso. A dieta rica em proteína demonstrou ainda provocar redução da ingestão energética. Aparentemente isso demonstra que esse tipo de dieta levou a aumento da saciedade, embora este parâmetro não tenha sido avaliado diretamente (Johnstone et al., 2008).
Para perda e manutenção do peso, depende-se tanto da saciedade como da preservação da massa magra.  A ingestão adequada de proteína ajuda a satisfazer essas duas condições. Portanto, a ingestão de proteína deve ser mantida dentro do recomendado, mesmo com a restrição energética. Além disso, a ingestão adequada de proteínas é benéfica para a composição corporal, melhora a pressão arterial e reduz o risco de recuperar o peso. O sucesso da dieta low carb, que é rica em proteínas, pode ser atribuída mais ao conteúdo relativamente alto de proteína do que à restrição de carboidratos (Westerterp-Plantenga et al., 2012).

Dieta low carb e risco à saúde

Com a popularidade das dietas low carb e consequente redução no consumo de carboidratos, há probabilidade de que alguns grupos populacionais tenham ingestão deficiente de ácido fólico.
A deficiência de ácido fólico durante a gestação acarreta má formação do feto, causando, especificamente, anencefalia e espinha bífida, conjuntamente denominadas de “defeito do tubo neural”.  A anencefalia é a ausência de cérebro e as crianças com esta má formação nascem mortas ou morrem logo após o nascimento. A espinha bífida é o não fechamento da coluna vertebral. As crianças com esta má formação podem apresentar diversos problemas, tanto físicos como no funcionamento do organismo, tais como problemas intestinais, renais, neurológicos, paralisia dos membros inferiores, problemas ortopédicos dentre outros, e irão requerer cuidados especiais durante toda a vida.

O ácido fólico é uma vitamina encontrada principalmente em vegetais folhosos. Em sua forma natural, é facilmente destruída durante o cozimento dos alimentos, o que contribui para tornar sua deficiência um sério problema de saúde pública em todo o mundo. Para prevenir esta doença, diversos países e inclusive o Brasil tornaram obrigatório o enriquecimento das farinhas de trigo e de milho com uma forma de ácido fólico resistente ao calor. Sendo assim, a ingestão destas farinhas e de alimentos preparados com elas é uma forma de garantir o consumo adequado de ácido fólico e a prevenção do nascimento de crianças com má formação do tubo neural. Portanto, se gestantes excluírem estes alimentos de suas dietas, o objetivo do enriquecimento destas farinhas pode ser perdido. 

Para sanar esta dúvida, um grupo de pesquisadores desenvolveu uma pesquisa avaliando a ingestão alimentar de gestantes e o estado de saúde dos bebes após o nascimento. A ingestão de ácido fólico entre as mulheres com restrição de carboidratos foi menor do que as mulheres que ingeriam carboidrato normalmente. As mulheres com ingestão restrita de carboidratos tinham 30% mais chances de ter filhos com anencefalia ou espinha bífida (Desrosiers et al., 2018). Sendo assim, fica o alerta para a população: a restrição do consumo das farinhas de trigo, de milho e seus derivados pode acarretar ingestão inadequada de ácido fólico, cuja deficiência causa problemas seríssimos e irreversíveis para o “bebê”.

Conclusões

1) Não existem evidências científicas que indiquem uma superioridade da dieta low carb frente a outros tipos de dieta para a perda de peso. A restrição energética (de calorias) parece ter o papel principal na perda de peso, independente do tipo de dieta adotado.

2) Dietas restritas em carboidrato são mais efetivas nas primeiras 12 semanas, mas, com o passar do tempo, seu efeito na perda total de peso se iguala a outras dietas.

3) A exclusão de farinha de trigo, farinha de milho e seus derivados pode acarretar deficiência de ácido fólico.

4) Algumas publicações indicaram que a dieta low carb, por aumentar a proporção de gordura na dieta, leva a aumento de LDL colesterol (colesterol ruim).

5) Não apenas a restrição de carboidratos e de energia, mas também ingestão elevada de proteínas parece ter papel importante na perda de peso.


Referências bibliográficas

1) Desrosiers, TA, Siega-Riz, AM, Mosley, BS, Meyer, RE. Low carbohydrate diets may increase risk of neural tube defects. National Birth Defects Prevention Study. (2018) 25-33.
2) Brouns, F. Overweight and diabetes prevention: is a low-carbohydrate–high-fat diet recommendable? Eur. J. of Nutr. (2018) 57:1301–1312.
3) Johnstone, AM, Horgan, GW, Murison, SD, Bremner, DM, Lobley, GE. Effects of a high-protein ketogenic diet on hunger, appetite, and weight loss in obese men feeding ad libitum.  Am. J. Clin. Nutr. (2008) 87:44–55.
4) Mansoor, N, Vinknes, KJ, Veierød, MB, British, KN. Effects of low-carbohydrate diets versus low-fat diets on body weight and cardiovascular risk factors: a meta-analysis of randomised controlled trials.  J. of Nutr. (2014) 115:466–479.
5) Naude, CE, Schoonees, A, Senekal, M, Young, T, Garner, P, Volmink, J. Low Carbohydrate versus Isoenergetic Balanced Diets for Reducing Weight and Cardiovascular Risk: A Systematic Review and Meta-Analysis. Plos one. (2014) 9:305-319.
6) Westerterp-Plantenga, MS, Lemmens, SG, Westerterp, KR. Dietary protein – its role in satiety, energetics, weight loss and health. Brit. J. of Nutr. (2012)108:S105–S11.
7) Westman, EC, Feinman, RD, Mavropoulos, JC, Vernon, MC, Volek, JF, Wortman, JA,  Yancy, WS, Phinney, SD. Low-carbohydrate nutrition and metabolism. Am. J. Clin. Nutr. (2007) 86:276–84.
8) Wycherley, TP, Brinkworth, GD, Keogh, JB, Noakes, M, Buckley, JD, Clifton, PM. Long-term effects of Weight loss with a very low carbohydrate and low fat diet on vascular function in over weight and obese patient. J. of Inter. Med. (2010) 267:452–461.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Coluna Nutrição: Deficiência de vitamina D na gestação e depressão pós-parto




Deficiência de vitamina D na gestação e depressão pós-parto


Larissa Leandro da Cruz e Karla Silva Ferreira


Apesar de ser conhecida como vitamina D, uma vitamina lipossolúvel, conceitualmente se trata de um pró-hormônio produzido a partir da ação do raio ultravioleta B na pele quando há exposição à luz solar (Figura 1).



Esta vitamina apresenta importante função para a absorção do cálcio e, consequentemente, para a saúde dos dentes e dos ossos. As situações que favorecem a sua deficiência podem gerar condições como o raquitismo, a osteomalácia e a osteoporose.

Nos últimos anos, com os avanços em estudos populacionais e na área da saúde, tem sido observado que a deficiência de vitamina D está associada a outras manifestações clínicas e a patologias, tais como baixa imunidade, fadiga, fraqueza muscular, dor crônica, doenças cardiovasculares e respiratórias, diabetes, alguns tipos de câncer, doenças autoimunes como a esclerose múltipla e a psoríase e quadros depressivos, incluindo a depressão pós-parto. Para mais detalhes, veja a matéria sobre vitamina D publicada em novembro de 2015 no Blog da Ciência da UENF:  “Sem sol, peixes, gema de ovo, fígado e manteiga; sem vitamina D”.

Um grupo de pesquisadores australianos avaliou 796 gestantes com o objetivo de verificar se as concentrações séricas de vitamina D, durante o período gestacional, estariam associadas a sintomas da depressão pós-parto. As gestantes tiveram amostras de sangue coletadas no segundo trimestre de gestação (18ª semana) para que a análise da vitamina D fosse realizada.

Além disso, até três dias pós-parto, as mesmas gestantes responderam a um questionário de seis perguntas derivadas da Escala de Depressão Pós-parto de Edimburgo, que avalia a ansiedade, a tristeza, as flutuações de humor, os episódios de choro, mudanças de apetite e distúrbios do sono não relacionados ao cuidado do bebê.

Os pesquisadores concluíram que concentrações mais baixas de vitamina D, no segundo trimestre da gravidez, estão ligadas a sintomatologias que podem indicar a perturbação do humor e a um maior risco de sintomas depressivos pós-parto, especialmente nos primeiros dias após o nascimento.

Recentemente a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) anunciou a mudança do valor de referência para as concentrações sanguíneas de vitamina D: atualmente valores a partir de 20 ng/mL são considerados normais, enquanto que anteriormente era acima de 30 ng/mL. Ainda, aquelas pessoas que estão entre as dosagens de 20 a 30 ng/mL não necessitam de reposição da vitamina.

As concentrações séricas baixas ou insuficientes de vitamina D, durante a gestação, não terão consequências somente para as mães, mas também para os bebês. Alguns estudos associam a deficiência de vitamina D a dificuldades de desenvolvimento para os filhos, como atraso de linguagem e doença mental grave.  Maiores riscos para a psicopatologia infantil e problemas de internalização em crianças pré-escolares também já foram relatados.

Diante desta observação, profissionais que atendam gestantes, durante as consultas de pré-natal, devem ter o cuidado de avaliar o status desta vitamina e adotar condutas que possam prevenir a sua deficiência ou, quando existente, tratá-la, seja por meio de orientações a respeito da exposição solar ou consumo de alimentos fontes de vitamina D ou suplementos nutricionais.

A principal fonte de vitamina D é a luz do sol, que é responsável por 80 a 90% de toda a vitamina D que o corpo necessita.  Para isso, é preciso que haja exposição de braços e pernas, sem o uso do protetor solar, por cerca de 5 a 30 minutos entre o horário de 10h às 15h, duas vezes por semana. Afora a exposição à luz solar e uso de suplementos nutricionais, poucos são os alimentos fontes naturais de vitamina D. São eles:  salmão, sardinha, ovo, leite, fígado, queijos e alimentos enriquecidos com vitamina D.

Controlar fatores que possam favorecer o desenvolvimento de um quadro depressivo no pós-parto imediato é crucial também para o estabelecimento do aleitamento materno, uma vez que algumas puérperas com depressão deixam de amamentar seus bebês. Portanto, o cuidado da saúde durante a gestação é importante tanto para a mãe quanto para o filho.

Referências:

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2) Marques CDL, Dantas AT, Fragoso TS, Duarte ALBP. A importância dos níveis de vitamina D nas doenças autoimunes. Rev Bras Reumatol 2010;50(1):67-80.
3) Maeda SS, Borba VZC, Camargo MBR, Silva DMW, Borges JLC, Bandeira F, Castro ML. Recomendações da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) para o diagnóstico e tratamento da hipovitaminose D. Arq Bras Endocrinol Metab. 2014;58/5.
4) Hasselmann MH, Werneck GL, Silva CV. Symptoms of postpartum depression and early interruption of exclusive breastfeeding in the first two months of life. Cad Saúde Pública. 2008; 24 (Suppl 2):S341-52.
5) Dennis CL, McQueen K. The relationship between infant-feeding outcomes and postpartum depression: a qualitative systematic review. Pediatrics. 2009; 123(4):e736-51.
6) Sharma V, Corpse CS. Case Study revisiting the association between breastfeeding and postpartum depression. J Hum Lact. 2008; 24(1):77-9.
7) Sociedade Brasileira de Dermatologia. Disponível em: http://www.sbd.org.br/. Acesso em 15/03/2018.
8) Marques CDL, Dantas AT, Fragoso TS, Duarte ALBP. A importância dos níveis de vitamina D nas doenças autoimunes. Rev Bras Reumatol 2010;50(1):67-80.
9) Robinson M, Oddy WH, Li J, Kendall GE, de Klerk NH, Silburn SR, Zubrick SR, Newnham JP, Stanley FJ, Mattes E (2008) Pre- and postnatal influences on preschool mental health: a large-scale cohort study. J Child Psychol Psychiatry 49(10):1118–1128.
10) Robinson M, Kendall GE, Jacoby P, Hands B, Beilin LJ, Silburn SR, Zubrick SR, Oddy WH (2011) Lifestyle and demographic correlates of poor mental health in early adolescence. J Paediatr Child Health 47(1):54–61.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Coluna Nutrição: Gordura interesterificada com ácido palmítico- a substituta da gordura “trans” pela indústria alimentícia e sua repercussão na saúde humana




Gordura interesterificada com ácido palmítico- a substituta da gordura “trans” pela indústria alimentícia e sua repercussão na saúde humana


Christyane Bisi Tonini, Gabriel Carvalho, Giane Kristosch, Elaine Gimenez Guimarães, Larissa Leandro da Cruz, Letícia Silva Nascimento, Nathalia Ribeiro Ferreira da Silva, Rodrigo da Silva Gebara, Karla Silva Ferreira


As gorduras são importantes para a produção de alimentos pois conferem sabor, afetam a estrutura, a estabilidade, tempo de estocagem, entre outras características. Na natureza, a maior parte dos óleos e gorduras estão na forma de triglicerídeos que são substâncias formadas por três ácidos graxos ligados a uma molécula de glicerol, conforme apresentado na Figura 1.




Os óleos e gorduras apresentam diferentes comportamentos nos alimentos e na saúde em razão dos ácidos graxos que os compõem. Estes ácidos graxos diferem entre si devido ao número de átomos de carbono e à presença ou ausência de duplas ligações. Os ácidos graxos saturados são os que não possuem duplas ligações e são vulgarmente denominados de gordura saturada. Os que possuem uma ou mais duplas ligações são ácidos graxos insaturados e vulgarmente denominados de gordura insaturada.

Com raras exceções, os óleos e azeites possuem teores mais elevados de ácidos graxos insaturados e são líquidos à temperatura ambiente. Já as gorduras possuem maiores concentrações de ácidos graxos saturados e são sólidas ou cremosas à temperatura ambiente.

A influência dos ácidos graxos sobre a incidência de doenças cardiovasculares e as concentrações sanguíneas de lipídios tem sido demonstrada em várias pesquisas. Por exemplo, o consumo de gordura saturada é associado a problemas na saúde, principalmente devido à presença dos ácidos graxos láurico (12 átomos de carbono), mirísitico (14 átomos de carbono) e o palmítico (16 átomos de carbono). Devido a esse fator, muitas indústrias de alimentos substituíram em suas formulações as gorduras animais por óleos vegetais parcialmente hidrogenados, os quais apresentam consistência semelhante às gorduras animais. Entretanto, durante este processo, há formação de ácidos graxos com configuração “trans”.

Estes ácidos graxos, também denominados de “gordura trans”, passaram a ser rejeitados pelos consumidores pois ficaram estabelecidos seus malefícios à saúde, como o aumento no processo inflamatório, risco de câncer e acúmulo nas artérias, causando problemas cardiovasculares. Para contornar a rejeição dos consumidores, as indústrias de alimentos buscaram alternativas para reduzir os teores de alimentos contendo gordura “trans”. Atualmente há no mercado grande quantidade de alimentos com o apelo de “zero trans”. 

Para modificar a consistência dos óleos vegetais, tornando-os mais sólidos e cremosos, sem formação de gordura “trans”, foi desenvolvido um novo processo denominado interesterificação. Para a produção da gordura interesterificada utilizam-se óleos que contêm teores mais elevados de ácidos graxos saturados, como é o caso do óleo de palma, que possui alto teor de ácido palmítico. O ácido palmítico normalmente substitui o ácido graxo insaturado localizado na posição n-2 da cadeia de triacilglicerol do óleo que está sendo interesterificado, normalmente óleo de soja. Outra estratégia é adicionar no óleo triacilgliceróis formados apenas por ácido palmítico, denominado triplalmitina. Deste modo, obtém-se uma gordura “zero trans”, porém com maior teor de ácidos graxos saturados, especificamente de ácido palmítico. Este ácido graxo possui ponto de fusão elevado, 63,3ºC e, consequentemente, torna o óleo mais cremoso a temperatura ambiente. A Figura 2 mostra a estrutura do ácido palmítico e a Figura 3 da tripalmitina.





Atualmente, o óleo de palma ou azeite de dendê é o mais produzido no mundo, levando, inclusive, ao desmatamento de áreas de floresta tropical para o plantio desta cultura, chegando próximo de 63 milhões de toneladas. Oitenta por cento do óleo produzido é destinado para a indústria de alimentos, principalmente para a fabricação de biscoitos, margarinas, chocolates, bolos, sorvetes, dentre outros produtos, por exemplo a Nutella e o Kitkat (Figura 4 e 5). Em alguns rótulos de alimentos, geralmente esse ingrediente aparece com o pseudônimo de “óleo vegetal”.         
                       





O consumo do óleo de palma não refinado tem se mostrado benéfico à saúde, uma vez que reduz as lipoproteínas de baixa densidade (LDL ou colesterol ruim), a formação de placas de gordura nas artérias e, consequentemente, o risco de doenças cardiovasculares. A justificativa para esses benefícios é que este óleo não refinado contém compostos como a vitamina E, carotenóides e outros antioxidantes. No entanto, quando usando no processo de interesterificação este benefício é perdido e os produtos fabricados com a gordura interesterificada possuem teores mais elevados de ácido palmítico, o que vem acarretando o aumento do seu consumo pela população. Especialistas em saúde pública da “American Heart Association” publicaram um documento manifestando sua preocupação com os riscos do uso de gordura transesterificada em substituição da gordura “trans’.

Estudos realizados nas últimas décadas apresentaram efeitos do ácido palmítico na saúde humana. Por exemplo, a gordura do leite humano possui elevados teores de ácido palmítico posicionado no centro do triacilglicerol, posição sn-2, conforme ocorre com a gordura interesterificada. Nestas condições ele é melhor absorvido e promove maior absorção de cálcio. Isso é bom para os recém- nascidos a termo e prematuros, que necessitam de maior aporte de energia e também de cálcio. Por outro lado, pesquisas realizadas com adultos e animais, correlacionaram o consumo de ácido palmítico com o desenvolvimento de ansiedade, arteriosclerose, picos de triglicerídeos, acúmulo de LDL, certos tipos de câncer e diabetes tipo 2.

Com base nos conhecimentos até o momento, pode-se presumir que o consumo de ácido palmítico em excesso pode trazer consequências maléficas para a saúde humana a longo prazo tanto quanto o consumo de gordura “trans”. Portanto, o mais sensato que podemos fazer é ler os rótulos dos alimentos antes de compra-los e evitar o consumo dos que contém em sua lista de ingredientes “gordura vegetal” ou “gordura interesterificada”, além da gordura trans.


Referências Bibliográficas:

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quinta-feira, 17 de maio de 2018

Coluna Nutrição: Disbiose e obesidade




Disbiose e obesidade


Taylane Fragoso, Luiz Fernando Miranda da Silva, Karla Silva Ferreira


Sabe-se que o sedentarismo, maus hábitos alimentares, uso excessivo de álcool e estresse estão entre os fatores de risco associados à obesidade. Nos últimos anos, porém, os pesquisadores estão encontrando evidências que apontam que os tipos de bactérias e suas quantidades no intestino podem influenciar no aumento da gordura corporal.

O trato intestinal humano é colonizado, logo após o nascimento, por bactérias que desenvolvem populações relativamente complexas e estáveis. As bactérias da microbiota intestinal são encontradas nos intestinos delgado e grosso. Especificamente no cólon (intestino grosso), as bactérias anaeróbias obrigatórias (que sobrevivem apenas na ausência de oxigênio) superam as bactérias anaeróbias facultativas (que podem viver tanto na presença quanto na ausência de oxigênio). Aproximadamente 30% desta população microbiana pertencente ao Filo Bacteroidetes. Um outro filo de bactérias de interesse para o estudo são as Firmicutes, maioria das quais possui uma parede celular gram-positiva (Trabulsi; Sampaio, 2008; Tortora; Funke; Case; 2006). Este grupo de bactérias parece estar relacionado com o desenvolvimento de obesidade.



A relação entre as bactérias intestinais (microbiota) com a obesidade começou a ser estudada quando alguns cientistas transferiram a microbiota de ratos obesos para ratos magros, e em seguida observaram que os animais com peso normal ganharam peso após a alteração da sua flora intestinal (Duncan et al., 2008).

Evidências apontam que um desequilíbrio da flora intestinal, conhecido como disbiose, pode alterar o mecanismo de armazenamento de gordura corporal e a resposta aos hormônios que controlam a saciedade. Pessoas com excesso de peso apresentam um aumento da relação entre bactérias do tipo Firmicutes e Bacteroidetes quando comparados a indivíduos magros. Esse desbalanço promove o aumento do Fator Adiposo Induzido por Jejum (FIAF) que, por sua vez, aumenta o armazenamento de triglicerídeos, além de diminuir a secreção de hormônios como o GLP1 e o PeptídeoYY, promovendo menor saciedade, e em contrapartida aumento na ingestão de alimentos. Dessa forma, a microbiota é essencial para manutenção da homeostase do metabolismo energético (Crovesy et al., 2017).

A microbiota intestinal está sujeita a rígido controle, e dentre os fatores que contribuem para isso destaca-se a acidez gástrica e a idade. As bactérias do cólon sintetizam vitaminas como biotina, ácido fólico, tiamina, B12 e K e fermentam carboidratos não digeríveis (fibras) em ácidos graxos de cadeia curta que constituem fontes de energia para as células intestinais (Trabulsi e Sampaio, 2008).



As causas da disbiose intestinal são várias, desde o parto até o estresse e estilo de vida. Desta forma, os gatilhos e mediadores relacionados à hipersensibilidade intestinal e disbiose são: o uso de antibióticos e consumo excessivo de álcool, estresse e qualidade de vida, consumo excessivo de açúcar e alimentos industrializados, doenças intestinais, como síndrome do intestino irritável, constipação intestinal, diarreia, infecções por Helicobacter pylori e infecções do trato geniturinário.



Até o momento a dieta é um dos principais fatores que influenciam essa relação microbiota x obesidade. Sendo assim, escolhas alimentares equivocadas podem alterar toda a microbioma intestinal, favorecendo o crescimento de bactérias patogênicas e o desenvolvimento da obesidade. Faz-se necessário a colonização intestinal por bactérias benéficas que auxiliem a digestão e absorção dos nutrientes. O que os pesquisadores esperam é modificar o microbioma intestinal com o uso de probióticos, prebióticos e simbióticos, favorecendo o desenvolvimento de cepas benéficas para a redução do peso (Li et al., 2017; da Silva et al., 2013).

Uma ferramenta empregada para garantir a sobrevivência dos probióticos e garantir a seleção benéfica da microbiota intestinal são os prebióticos, que são os alimentos dos microrganismos benéficos. O termo prebiótico foi empregado por Gibson e Roberfroid, em 1995, para designar “ingredientes nutricionais não digeríveis que afetam beneficamente a saúde do indivíduo que os ingere estimulando seletivamente o crescimento e atividade de uma ou mais bactérias benéficas do cólon, melhorando a saúde do indivíduo”. A principal ação deles é estimular o crescimento e/ou ativar o metabolismo de algum grupo de bactérias benéficas do trato intestinal (Flesch et al., 2014).

O composto formado pela associação de um ou mais microrganismos benéficos (probióticos) com um ou mais de seus alimentos (prebióticos) é denominado simbióticos. Esta associação é importante para garantir a sobrevivência dos probióticos.




Segundo o Regulamento Técnico de 2005 da Anvisa a quantidade de probióticos em um composto simbiótico deve ter quantidade mínima viável (vivos e com capacidade de sobreviver) na faixa de 10⁸ a 10⁹UFC na dose do simbiótico recomendada para ser ingerida diariamente no produto pronto para consumo. UFC é Unidade Formadora de Colônia, que é modo de expressar a quantidade de microrganismos presentes em um produto ou local. A concentração de células viáveis deve ser ajustada na preparação a ser ingerida, levando-se em conta a capacidade de sobrevivência de maneira a atingir o mínimo de 10⁷ UFC do conteúdo intestinal (Stefe et al., 2008). Na Tabela 1 pode-se observar a dose recomendada (UFC) dos probióticos mais utilizados.




Quanto à porção prebiótica, demonstrou-se que 10 g/dia de Frutooligossacarídeos (FOS) constitui dose ideal e bem tolerada, e que 4 g/dia de FOS ou inulina é o mínimo necessário para promover o crescimento de bifidobactérias. Mas é importante ressaltar que estes probióticos e prebióticos podem causar gases.



Referências bibliográficas

Crovesy L   et al. Effect of Lactobacillus on body weight and body fat in overweight subjects: a systematic review of randomized controlled clinical trials. Int J Obes (Lond). 2017.

da Silva ST1, dos Santos CA, Bressan J. Intestinal microbiota; relevance to obesity and modulation by prebiotics and probiotics. Nutr Hosp. 2013 Jul-Aug;28(4):1039-48.

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Flesch, A.G.T.; Poziomyck, A.K.; Damin, D.C. O uso terapêutico dos simbióticos. ABCD Arq Bras Cir Dig Artigo de Revisão; 27(3), p. 206-209, 2014.

Li, J et al. Strategies to increase the efficacy of using gut microbiota for the modulation of obesity. Obes Rev. 2017 Jul 25.

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Tortora, G. J.; Funke, B. R.; case, C. L. Procariotos: Domínio Bacteria e Archaea. In: MICROBIOLOGIA. 8. ed. São Paulo, SP: Artmed, 2006. p. 305-333.

Trabulsi, L. R.; Sampaio, M. C. Microbiota Normal do Corpo Humano. In: TRABULSI, L. R.; ALTERTHUM, F. Microbiologia. 5. ed. São Paulo, SP: Atheneu, 2008. p. 103- 110.

Turroni, F et al. Molecular dialogue between the human gut microbiota and the host: a Lactobacillus and Bifidobacterium perspective. Cell Mol Life Sci. 2014 Jan; Ed 71, vol 2, p. 183-203.







terça-feira, 24 de abril de 2018

Coluna Nutrição: Incompatibilidade entre alguns nutrientes: a hora do cálcio não pode ser a hora do ferro nem de zinco e o excesso de ferro e fibras prejudicam a absorção do zinco!

Incompatibilidade entre alguns nutrientes: a hora do cálcio não pode ser a hora do ferro nem de zinco e o excesso de ferro e fibras prejudicam a absorção do zinco!


Taylane Fragoso de Freitas e Karla Silva Ferreira

Com a correria do dia a dia, as propagandas, a medicina ortomolecular, a preocupação com o estado nutricional, dentre outros fatores, é raro encontrar alguém que não faça uso de algum suplemento nutricional ou nutracêutico. Sendo assim, é importante saber a hora certa de usar cada mineral ou suplemento de forma que sejam melhor aproveitados pelo organismo e não atrapalhem a absorção de outros nutrientes.

Há muito tempo tem-se observado que dietas ricas em cálcio diminuem a biodisponibilidade do ferro e este efeito vem sendo muito pesquisado em função da recomendação dos suplementos de cálcio para prevenção da osteoporose. Alguns trabalhos têm demonstrado que determinadas formas de suplementos de cálcio podem inibir a absorção de Ferro “não heme”, que é o ferro encontrado nos vegetais, por exemplo no feijão, na soja, na lentilha e no espinafre e também no sulfato ferroso. Já a absorção do ferro “heme”, que é o presente nas carnes, parece não ser inibida pelo cálcio.

A deficiência de ferro é uma das deficiências nutricionais mais comuns. Ela ocorre com mais frequência em mulheres durante o período fértil devido à perda de sangue na menstruação, em idosos, pela má absorção, e também em crianças. Portanto, considerando o efeito inibidor do cálcio na absorção do ferro, os suplementos e alimentos fontes de cálcio, tais como leite, queijo, carbonato de cálcio, dentre outros, devem ser consumidos fora dos horários das refeições principais (almoço e jantar), visto que elas são as mais ricas em ferro. Estudo de Gleerup et al. (1995) sobre a absorção de ferro de uma dieta completa associada a diferentes horários de ingestão de cálcio conclui que a absorção de ferro diário poderia aumentar em 34% se a ingestão de cálcio fosse apenas no desjejum e na ceia noturna.

O excesso de ferro na alimentação também pode interferir na biodisponibilidade de zinco e vice-versa quando ocorre de um estar em quantidade muito elevada em relação ao outro. Portanto, caso haja necessidade de suplementação com um destes minerais, deve-se atentar para a probabilidade da baixa absorção do outro.

Quanto à interação de cálcio e zinco, um efeito mais pronunciado é observado quando a dieta também é rica em fitatos, substância encontrada nos cereais integrais, farelos e leguminosas. O fitato tem carga negativa e se liga com facilidade aos metais, principalmente ao cálcio e zinco formando um complexo Ca:fitato/Zn que impede a absorção destes minerais. A quantidade de fitato, que é  crítica para a formação deste complexo, ainda não foi determinada, mas o prejuízo existe quando há utilização de farelos, nas dietas vegetarianas ou em dietas de populações de países em desenvolvimento, cuja ingestão de zinco é baixa associada a altos teores de fitato (Fairweather-Tait, 1996). Trabalho realizado por Wood e Zheng (1997) também demonstra que a ingestão de 600 mg de cálcio junto com a refeição diminui a absorção de zinco em 50%. Eles concluíram que dietas com altos teores de cálcio podem aumentar as necessidades de zinco em humanos adultos.

Diante disso, o ideal é que os alimentos fonte e a suplementação de cálcio sejam priorizados nas pequenas refeições (desjejum e ceia) e a suplementação de ferro e zinco devem ser priorizadas nas refeições principais (almoço e jantar) (Figura 1).



É importante enfatizar que muitos alimentos fontes de ferro são também fonte de zinco. Entretanto, como estão presentes em pequenas quantidades nos alimentos, pouco afetam a absorção um do outro. Na Tabela 1 são mostrados os teores de cálcio, ferro e zinco em alguns alimentos.



Em contrapartida, na pescrição dietética, o nutricionista deve levar em consideração casos em que o indivíduo apresenta excesso de ferro no corpo (elevado hematócrito e aumento da quantidade de ferritina no sangue, elevando a formação de radicais livres). Sendo assim, não há neste caso tanta preocupação com minerais que inibem a absorção de ferro. Pelo contrário, o ideal é retirar alimentos fonte de ferro ou usar estratégias que diminuem sua absorção.

As necessidades nutricionais variam conforme a idade e estado fisiológico. Para um adulto saudável, a Organização Mundial de Saúde recomenda uma ingestão diária de cálcio de 1000 mg/dia. Para o zinco, a recomendação é de 11 mg por dia para homens a partir de 14 anos e 8 mg por dia para mulheres. Já em relação ao ferro, há maior variação na recomendação devido à perda menstrual na idade fértil. A recomendação é de 14 mg/dia para homens a partir de 14 anos, 8 mg/dia para mulheres a partir de 50 anos, 15 mg/dia para mulheres entre 14 e 18 anos e 18 mg/dia para mulheres entre 19 e 50 anos.

Concluímos com um tradicional conhecimento da nutrição que é o seguinte: a atuação dos nutrientes no organismo ocorre em padrões inter-relacionados, de forma que tanto a ausência de um nutriente quanto seu excesso pode prejudicar a função dos demais. O desbalanceamento da dieta pode ser tão prejudicial quanto a carência de nutrientes específicos (Mahan e Arlin, 1995). Portanto, qualquer suplementação deve ser realizada com cautela, pois a suplementação em excesso pode sobrecarregar fígado e pâncreas, e a suplementação ineficiente não trará os resultados esperados.

Referências

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BRASIL. Resolução da Diretoria Colegiada – RDC n. 54, de 12 de novembro de 2012. Dispõe sobre o Regulamento Técnico sobre Informação Nutricional Complementar. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 12 de novembro de 2012.
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MAHAN, L.K., ARLIN, L.T. Krause: alimentos, alimentação e dietoterapia. 8 ed. São Paulo: Rocca, 1995. 957p.
WOOD, R.J., ZHENG, J.J. High dietary calcium intakes reduce zinc absorption and balance in humans. American Journal of Clinical Nutrition, Bethesda, v.65, p.1803-1809, 1997.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação. Tabela brasileira de composição de alimentos: TACO versão 2. 2. ed. Campinas: Ed. UNICAMP, 2006. 113 p. Disponível em www.unicamp.br/nepa/taco

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Coluna Nutrição: As bananas na alimentação humana




As bananas na alimentação humana


Luiz Fernando Miranda e Karla Silva Ferreira


A banana (Musa spp) é a fruta de maior aceitação mundial e nacional. No mundo, a produção anual é de 70,6 milhões de toneladas, produzidas principalmente pela índia, Brasil, China, Equador, Filipinas, Indonésia e México.  No Brasil, segundo a Embrapa, produz-se 7,3 milhões de toneladas por ano, sendo as regiões sudeste e nordeste as maiores produtoras.  Os brasileiros são os maiores consumidores mundiais de banana, principalmente as variedade prata e nanica. As variedades nacionais de banana são: Prata, Pacovan, Prata Anã, Maçã, Mysore, Terra, D’Angola, Nanica, Nanicão, Grande Naine, Ouro, Figo e Caru.

Com o advento do melhoramento genético, tem sido produzido um número maior de variedades de banana mais fáceis de serem cultivadas. A partir desta fruta pode-se elaborar diferentes subprodutos, como purê, banana em calda, bananada, banana passa, farinha, geléia, licor, vinho, vinagre, fruta cristalizada, suco e até álcool etílico. A banana poderia ser mais barata aos brasileiros se não fosse o alto grau de perda desde a produção até o transporte. Segundo a Embrapa, cerca de 40% do que é produzido é perdido até a chegada da fruta ao consumidor. Grande parte dessa perda deve-se à forma inadequada de transporte da fruta.

A banana é uma pseudobaga de polpa macia e casca consistente. Os pontos pretos na fruta são resquícios dos óvulos não fecundados e as linhas brancas são resquícios dos vasos condutores de seiva. A fruta não apresenta semente porque a seleção genética feita pelo homem a eliminou, assim como também existe melancia sem semente. Quando cortada ou descascada, a banana inicia o processo de escurecimento, devido às enzimas polifenoloxidase e peroxidases que, em contato com o oxigênio do ar, formam compostos escuros que causam seu escurecimento. Entretanto, até o momento, nada foi associado ao consumo destes compostos e doenças.

A banana é um alimento nutritivo, rico em algumas vitaminas e minerais, conforme mostrado na tabela abaixo.  Em geral, as bananas são ricas em carboidrato, fibra, potássio (contém teor equivalente a 8% da recomendação diária de magnésio, 4700 mg), manganês (18-37% da recomendação), cobre (7-12%) e vitamina C (5,2-19%). Mesmo sendo muito nutritiva, o consumo excessivo de banana deve ser evitado para não causar ganho de peso corporal (alimento muito energético). Em função de esta fruta apresentar baixo a médio índice glicêmico (dependendo da banana), bem como os tipos de carboidrato e quantidade presentes, a ingestão da mesma antes e pós-exercício físico pode ser boa estratégia nutricional para fornecimento de energia e recuperação muscular. Para melhor adequação da dieta, procure auxílio de nutricionista.

Nas bananas há também a presença de compostos bioativos, como aminas biogênicas, polifenóis, fitoesteróis e carotenóides. No que tange aos polifenólicos, na polpa e na casca existem o ácido gálico, catequina, antocianinas, epigalocatequina, galocatequina, epicatequinas e taninos, na quantidade total de 7-45 mg/100 g da polpa. A ingestão destes compostos tem associação com prevenção de doenças, como as inflamatórias, cardiovasculares, câncer e diabetes.

Sobre os flavonóides, foram detectados na fruta 2,2 mg/100 g de polpa. No Brasil, estima-se que a ingestão destes compostos seja de 60-106 mg diárias. Ou seja, isto evidencia que a banana não deve ser a principal fornecedora destes antioxidantes, já que a quantidade não é tão expressiva, e para a melhor ingestão destes compostos, a alimentação deve ser variada e ser rica em outros vegetais.




A banana também é fonte de carotenóides. Os carotenos identificados foram: luteína, β-caroteno, α-caroteno, violaxantina, auroxantina, neoxantina, isoluteina, beta-criptoxantina e alfa-criptoxantina, totalizando 93 à 636 mcg de carotenóides em 100 g da polpa fresca. No Brasil, identificou-se nas cultivares teor 319,6 mcg de carotenóides, prevalecendo a luteína (150 mcg em média). O consumo de alimentos ricos em carotenóides melhora a imunidade e reduz o risco de doenças, como câncer, neurodegenerativas, diabetes e problemas cardíacos.

A casca de banana e a polpa contêm aminas biogênicas, como serotonina, dopamina e norepinefrina. O teor de serotonina encontado nesta fruta situou-se na  faixa de 8 a 50 mcg/g (média de 28 mcg/g). A serotonina contribui para melhora da sensação de de bem-estar e felicidade. Ainda não se sabe o quanto isto contribui de forma significativa para a melhora do bem-estar.

A banana também apresenta teores consideráveis de fitoesteróis. Foram encontrados em diferentes cultivares de banana os seguintes fitoesteróis: cicloeucalenone, cicloeucalenol, cicloartenol, stigmasterol, campesterol e β-Sitosterol. Os teores destes compostos variaram entre 0,07-0,33 g em 100 g de banana madura. O consumo de três bananas por dia equivale a 1/3 da recomendação diária de fitoesteróis (3 g). A ingestão de 3 g de fitosteróis é segura e tem ação hipocolesterolêmica em pacientes que necessitam de redução no LDL plasmático. No entanto, isto é questionável, pois a ingestão de colesterol não apresenta grande impacto sobre o LDL-plasmático para todos os humamos, salvo àqueles com problemas de captação de LDL-colesterol do sangue e metabolização.


Abaixo são mostradas algumas variedades de banana mais consumidas no Brasil.





Uma boa sugestão para desjejum é banana da terra cozida no micro-ondas. Faça assim: lave a banana, apare suas pontas e a corte no meio. Faça um corte ao longo da casca e profundo até o meio da banana.  Deixe no micro-ondas por, aproximadamente, dois minutos, dependendo do grau de maturação. Retire a casca, abra a banana, acrescente manteiga, mel e canela e manteiga.  Aí está uma maravilha de desjejum.








Referências: 

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