segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Coluna Um quê de neurociência




Livre-arbítrio: isso existe mesmo?


                                                                                           Arthur Giraldi Guimarães*


Quem comanda a máquina que comanda o corpo humano?
O livre-arbítrio não existe! Sim, é isso que defendem alguns neurocientistas, obviamente fundamentados em importantes evidências científicas. A nossa consciência seria “enganada” pelo cérebro, que daria a ilusão de que as decisões são tomadas por ela. Mas na verdade, ao que parece, quem decide é o cérebro (que, aliás, é também o criador da própria consciência).

Em outras palavras, nossa consciência seria igual à Rainha da Inglaterra: parece que é a soberana e que manda e decide tudo, mas na verdade não manda e nem decide nada! Quem manda mesmo é o cérebro (que na analogia feita seria o Parlamento).

Isso certamente nos obriga a rever e questionar o conceito de “livre-arbítrio”, ou “vontade”. Isso existe mesmo? Naturalmente, este é um tema de altíssima complexidade, e obviamente existe discordância de pontos de vista entre os neurocientistas envolvidos neste tipo de estudo.

A ideia do livre-arbítrio como uma ilusão vem desde estudos clássicos até estudos mais recentes. Um dos maiores defensores da ideia é o neurocientista Michael Gazzaniga, coordenador do Centro para o Estudo da Mente da Universidade da Califórnia, que escreveu recentemente um livro sobre esse tema. Ele e muitos outros decretam o fim do livre-arbítrio baseados nos estudos de mapeamento da atividade cerebral durante o pensamento e a execução de movimentos e tarefas.

Basicamente, eles se apoiam nos resultados dos estudos que mostraram que ocorre atividade cerebral antes da ocorrência da consciência. Os exemplos são vários. Durante uma tarefa em que os voluntários tinham que decidir por apertar um botão, foi demonstrado que a área pré-motora do cérebro (responsável por planejar e coordenar a execução de movimentos) é ativada milissegundos antes da tomada de decisão consciente em apertar o botão.

Mais que isso: num estudo em que voluntários tinham que tomar a decisão de apertar um botão com a mão direita ou com a esquerda, os pesquisadores foram capazes de prever qual seria a decisão tomada pelo voluntário cerca de 7 segundos antes de ele tomar consciência do que fazia (ou seja, antes do ato consciente).

Estes e outros estudos sugerem que a vontade consciente, o sentimento de “querer” algo, ocorre depois, e não antes, da atividade cerebral. Primeiro, o cérebro decide e manda a ordem de execução. Depois, ele cria a consciência do ato, dando a sensação de que foi a consciência que quis e determinou o ato. Daí, portanto, a ideia de que a vontade, o livre-arbítrio, seria meramente uma ilusão, um “floreio” do nosso cérebro.

De fato, outra evidência de que primeiro ocorre a atividade cerebral e depois a sensação de vontade é a observação de que a estimulação elétrica, através de eletródios implantados diretamente na região cerebral de representação motora da mão, induziu pacientes a sentirem vontade de levantar a mão.

O próprio neurocientista Michael Gazzaniga já declarou que nós não precisamos da nossa consciência para tomar decisão alguma. Então, qual seria o papel dela? Lembre-se que a consciência também é fruto da atividade cerebral, mas diferente daquela responsável pela decisão sobre uma ação, tomada pelo cérebro.

É possível que ela sirva apenas para dar coerência e sentido às coisas, uma forma de contextualização das ações, fazendo com que exista uma razão e um sentido para as coisas que nós próprios fazemos e que nos dão a sensação de continuidade do mundo percebido.

Como um assunto denso como esse não poderia deixar de ter visões divergentes, existem pesquisadores que questionam as metodologias usadas nestes estudos sobre mapeamento cerebral. Primeiro, existem críticas no sentido de questionar se as técnicas usadas permitem medir realmente com precisão o tempo (normalmente na ordem de segundos e milissegundos) entre uma atividade cerebral e a execução de um movimento.

Segundo, todas as observações feitas nos estudos podem estar provando apenas que algumas decisões são tomadas pelo cérebro antes da consciência. Mas como são sempre testes particulares e específicos, com alto grau de padronização e simplificação para ter acurácia metodológica, não seriam prova definitiva de que todas as decisões possíveis sejam tomadas apenas de forma inconsciente. A simplificação dos testes não abordaria formas mais complexas de tomada de decisão, que aí sim poderiam perfeitamente necessitar da consciência.

O fato é que, se pararmos para nos autoanalisarmos, veremos que tomamos sim muitas decisões sem “pensar”, inconscientemente e involuntariamente, mesmo que pareça que foi voluntária. Um exemplo pessoal: ontem, antes de terminar de escrever esta coluna, fui à rua de carro. Num sinal com separação de seguir em frente ou virar à esquerda, eu aguardava para virar à esquerda. Então, apenas o sinal de seguir em frente abriu, e o carro que estava na frente começou a andar (ele também pretendia virar à esquerda). Eu, ao ver de relance o sinal verde de “siga em frente” e vendo o carro da frente ir, tomei a decisão de ir também e iniciei o arranque. Segundos (ou milissegundos, nem sei bem!) depois, percebi que a decisão estava errada e que o sinal de meu interesse, o de “vire à esquerda” ainda estava fechado, e então freei o carro e esperei. Bem, a segunda decisão foi aparentemente voluntária e consciente. Mas e a primeira? Essa certamente não foi.

À luz das evidências científicas apresentadas, a primeira decisão, mesmo sendo de alta complexidade e de relevância para a sobrevivência, foi rápida e não deu tempo de passar pela consciência. Depois que as informações chegaram e foram processadas pela consciência, um “tempão” depois, aí sim a segunda decisão pode ter sido tomada de forma consciente. Pelo menos é isso que eu acredito que tenha acontecido com o meu cérebro durante este fato relatado! Mas, também segundo as evidências apresentadas, mesmo a segunda decisão pode ter sido inconsciente, e meu cérebro pode ter criado a ilusão de que foi minha (pobre) consciência que decidiu!

É, a neurociência é mesmo uma destruidora de ilusões! Para aqueles autoconfiantes, seguros da sua capacidade de tomar decisões voluntárias inteligentes e eficazes, cheios de si, sentimos muito em dizer que pode não ser você quem decide as coisas. De certa forma até é você, pois no final das contas cognitivamente você é o seu cérebro, mas pode ser que não seja o “eu consciente” quem esteja à frente das coisas. Toda essa sua empáfia pode ser apenas um “floreio” do seu cérebro.......triste, não?

Bom, essa discussão ainda está de pé e terá muitos e muitos capítulos pela frente!


*Professor do Laboratório de Biologia Celular e Tecidual (LBCT) do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) da UENF.



SUGESTÃO DE LEITURA:

Leisman G, Machado C, Melillo R, Mualem R. Intentionality and "free-will" from a neurodevelopmental perspective. Front Integr. Neurosci. 2012; 6(36): 1-12.


Gazzaniga, Michael S. Who's in Charge? Free Will and the Science of the Brain. 1ª Ed. Ecco / HarperCollins, 2011.

5 comentários:

  1. Luiz Fernando Miranda8 de outubro de 2012 18:34

    Parabéns pela matéria! Polêmica sem perder a imparcialidade.

    ResponderExcluir
  2. Vontade consciente do agente: o ato consciente versus as bambolinas do cenário químico da consciência.

    A previsão experimental da tomada de decisão poucos segundos antes da revelação do ato consciente não me parece grande prova ou evidencia em contra o liberum voluntatis arbitrium, isto é, da vontade livre de escolha. Essa comprovação experimental diz mais ao respeito das bambolinas do cenário químico do ato consciente, ora melhor compreendido por técnicas extremadamente sensíveis de medição da atividade cerebral. É algo assim como admitir que a luz fosse simples ilusão, pois pela ciência moderna ela é uma radiação eletromagnética perceptível.

    ResponderExcluir
  3. Olá, Arthur,
    Sou professor do programa de pós-graduação em Cognição e Linguagem, aqui na UENF, e tenho trabalhado nesse tema que você abordou. O assunto é fascinante, pois combina questões científicas e filosóficas. O curioso é ver que questões conceituais se escondem por trás da fala de muitos cientistas, traindo uma aderência a uma concepção que eles próprios pensam estar criticando. Deixe eu me explicar. Quando você escreve, acima, que a consciência é enganada pelo cérebro, que daria a impressão de que as decisões são tomadas por ela, quando na verdade quem decide é o cérebro, você está, no seu próprio linguajar, opondo consciência e cérebro. Você está tratando cérebro e consciência como duas coisas diferentes, como se a decisão tivesse que ser tomada ou por uma ou pela outra. Isso é em filosofia o que se chama de dualismo mente-cérebro. Você está de fato argumentando de forma dualista, para combater - imagino - o dualismo!
    Abraços,
    Gilberto Gomes

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Gilberto,

      A sua observação foi muito boa, e realmente eu cheguei a imaginar que alguém poderia fazer essa colocação. Mas, me permita discordar. Não existe dualismo no sentido “coisa imaterial” (alma, espírito, etc...) versus “corpo” (cérebro) no texto. O que foi exposto e discutido é a evidência de que as decisões não seriam tomadas pela faculdade mental (cerebral) da consciência, mas sim por outra(s) faculdade(s) mental(ais). A comparação consciência versus cérebro foi feita para enfatizar isso. Mas está dito no texto que a consciência também é resultado da atividade cerebral, sendo uma das faculdades mentais, dentre todas as outras. Veja que isso em nada nega ou aprova a ideia do dualismo cartesiano (alma versus corpo). O fato de indiscutivelmente o cérebro ser a sede da mente e da consciência não refuta a possibilidade de existir algo imaterial que se acople, ou se associe (nem sei que verbo usar para definir isso!!!) ao cérebro para produzir consciência. Não existem evidências científicas nem que refutem nem que corroborem isso! No momento, podemos apenas acreditar em A ou B, mas provar, ainda não é possível (se é que será um dia). Existem muitos neurocientistas que são materialistas e deterministas, mas existem os que não são. Eu sou imparcial nesta questão: não acredito em nada, apenas me apego às evidências. Quando elas não existem, não me preocupo e deixo a vida me levar.......


      Um abraço,

      ARTHUR

      Excluir
    2. Ah, que bom que você já tinha pensado nisso... Mas é preciso ter cuidado com o vocabulário, com a forma de dizer... Quando você diz "não é a consciência, é o cérebro quem decide", dá a impressão que a consciência não pertence às atividades cerebrais (embora você também tenha dito que é o cérebro que cria a consciência). Melhor seria dizer: "não é a consciência, mas outras atividades cerebrais que a precedem"... Certamente o "eu consciente" não está à frente de todas as coisas, mas isso não significa que ele não possa estar à frente de algumas...

      Excluir