quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Biochar, nova aposta para agricultura e meio ambiente

Doutoranda Karla Rodrigues monitorando emissão de gases
Você já ouviu falar em biochar, um produto rico em carbono, obtido através da decomposição térmica de matéria orgânica e que é usado para melhorar a fertilidade do solo, reduzir a emissão de gases de efeito estufa (GEE) e reter água e nutrientes para as plantas? Esta é a nova aposta de um grupo de pesquisadores da UENF. Liderados pelo professor Hernán Maldonado Vásquez, do Laboratório de Zootecnia e Nutrição Animal (LZNA), eles conduzem experimento de produção de biochar a partir de capim-elefante (Pennisetum purpureum Schum). Os primeiros resultados, ainda preliminares, apontam que o aquecimento do material deve ser feito à temperatura ideal de 400ºC, gerando um produto com elevado teor de carbono (55%).

O aquecimento da matéria-prima, no caso o capim-elefante, é feito através da pirólise. Trata-se de um processo no qual o carbono, ao invés de ser liberado para a atmosfera na forma de gás carbônico (CO2), é retido no biochar, que é posteriormente incorporado ao solo.

- Os outros gases liberados na pirólise podem ser capturados e convertidos em bióleo, que pode ser utilizado para a geração de energia. Contudo, nosso objetivo atual não é trabalhar com o bióleo – explica Hernán Maldonado.

O pesquisador explica que no momento estão sendo efetuadas as análises de emissões de gases de efeito estufa no solo e a volatilização de amônia. A fertilidade do solo e a produtividade do capim-elefante serão monitoradas durante pelo menos mais dois anos. Segundo Maldonado, trata-se de um experimento pioneiro no Brasil.

A utilização do biochar permite, além da incorporação de carbono no solo, o aumento da capacidade de troca catiônica (CTC) do solo, o que favorece a retenção de nutrientes essenciais, como o nitrogênio, evitando que seja perdido para a atmosfera na forma de gases como metano e amônia. Além disso, por ser uma fonte de carbono estável, o biochar sofre decomposição lenta e gradativa, ao contrário do que acontece com a matéria orgânica em processo natural, que apresenta rápida decomposição e maior liberação de gases de efeito estufa.

- Outro fator que confere ao biochar o potencial de mitigador das mudanças climáticas é apresentar em sua estrutura microporos que favorecem a retenção de água e nutrientes, promovendo um microambiente adequado para micro-organismos do solo – explica Maldonado.

Estudos têm origens em solos de terras indígenas

Incorporação do Biochar  no solo 
O nome biochar vem da junção de duas palavras do inglês: biomass e charcoal, biomassa e carvão. Ele pode ser obtido a partir de matéria orgânica vegetal ou animal. Os fatores que interferem no produto final são temperatura, tempo de pirólise e matéria-prima utilizada.

Segundo a literatura, a ideia do biochar surgiu de estudos da matéria orgânica das Terras Pretas de Índios (TPI), solos amazônicos alterados pela presença humana com excelentes características agronômicas e ambientais. Além da alta fertilidade, apresentam alto conteúdo de carbono estável (de origem pirogênica, ou seja, produzido por fogo ou calor) em sua fração orgânica, o que forneceu um modelo de solo adequado ao sequestro de carbono. O conhecimento da sua estrutura e de suas propriedades vem possibilitando a busca por materiais e técnicas que visem imitá-lo em práticas agrícolas.

O grupo envolvido na pesquisa inclui, além do professor Hernán Maldonado, a doutoranda Karla Rodrigues de Lima, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal; o zootecnista e mestre Rogério Aguiar; a doutoranda Georgia Amaral Mothé, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Naturais; e o professor Marcelo Sthel, do Laboratório de Ciências Físicas (LCFIS/UENF).  As determinações do teor de carbono no biochar foram feitas no Laboratório de Ciências Ambientais (LCA/ UENF). O projeto tem financiamento da Faperj.

Os experimentos são conduzidos na área experimental no Setor de Forragicultura e Nutrição de Ruminantes do LZNA/CCTA, no Colégio Agrícola Antonio Sarlo, em Guarus.

Gustavo Smiderle
Fotos: LZNA/UENF

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Coluna Infinitum



Conhecendo as Escolas Jônica e Pitagórica e sua influência nas ideias cosmológicas

Adriana Oliveira Bernardes
Mestre em Ensino de Ciências - UENF

Inicialmente as explicações a respeito do universo tinham características fortemente religiosas: o universo, tudo que existia nele e todos os fenômenos observáveis eram fruto da ação dos deuses; assim surgiram as cosmologias antigas.

Os egípcios, por exemplo, acreditavam que o universo era constituído por uma porção de terra em forma de travessa, atribuindo à Terra, ao Ar e ao Céu o status de divindades. Segundo eles, o Deus Terra sustentava o Deus Ar, que por sua vez sustentava a deusa Céu, que para eles eram respectivamente: Geb,  Shu e Nut. O Sol e a Lua eram explicados como resultado da trajetória de dois barcos, pertencentes a dois deuses, que atravessavam o céu todos os dias, passando por baixo da terra e aparecendo novamente no céu no dia seguinte.

Fonte: http://listadelivros-doney.blogspot.com.br/2013/01/o-grande-livro-dos-signos-simbolos.html

Já os indianos acreditavam que habitávamos sobre a superfície terrestre, apoiada por uma tartaruga gigante de proporções gigantescas, sustentada por três elefantes, que para eles constituíam-se em divindades, dotadas de força suficiente para amparar a Terra.

Porém, num período de aproximadamente 900a.C, floresceram na Grécia explicações para o universo não determinadas pela ação e vontade de deuses. Estas foram de grande contribuição para a ciência. A Escola Jônica trazia explicações para o universo destacadamente sem aliar à ação ou  vontade de deuses. Nela destacaram-se filosófos como Heráclito, Empédocles e Anaxágoras, entre outros, trazendo grande contribuição à cosmologia. Esta escola era tradicionalmente ateia e explicava o universo como ação dos elementos ar, terra, água e fogo. Para eles, esse conjunto de elementos que deu origem a tudo que existe; e a interação entre deles que provocava os fenômenos observáveis em nosso planeta.

No mapa abaixo, podemos observar a proximidade entre as cidades que eram ligadas por comércio intenso, tendo a escola Jônica surgido na cidade de Mileto.


Já a Escola Pitagórica, apesar de mística — ou seja, acreditava em algo além do observável que viria antes dos elementos e era responsável pelos fenômenos relacionados a ele — introduziu a Matemática no desenvolvimento da cosmologia, influenciando modelos cosmológicos futuros. Sem dúvida nenhuma, a introdução da Matemática para explicação dos fenômenos observáveis foi um grande feito da Escola fundada por Pitágora de Crotona.

A Escola Pitagórica acreditava na alma como fator preponderante para a existência de todos os elementos que compunham o universo. Filolau, filósofo pitagórico, elaborou uma teoria cosmológica na qual haveria um fogo central responsável pelos fenômenos observáveis no universo. Este fogo era o centro do universo e moviam-se a seu redor a Contra Terra, a Terra, a Lua, o Sol e os planetas conhecidos na época: Mercúrio, Marte, Júpiter e Saturno.

Segundo Filolau, a Terra girava ao redor do fogo central. Mas não podíamos vê-lo devido à Contra-Terra, que protegia a Terra do fogo central. Neste modelo, a Terra não era o centro do Universo e se movia, o que é um grande passo em relação a teorias anteriores. Era também a primeira teoria a cogitar o movimento terrestre.

Sugestões de Leitura:
A Ciência Grega
www.disciplinas.stoa.usp.br/mod/resource/view.php?id=88260

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Tomate: produto rentável

Pesquisa da UENF avalia diferentes sistemas de cultivo e manejo de adubação para o tomateiro

Ele está na salada, no molho, no sanduíche, no tempero e até no suco. Alimento que não pode faltar na mesa de milhões de brasileiros, o tomate foi um dos vilões da inflação no ano passado, com elevação no preço acima dos 100%. Tornar o produto mais acessível economicamente à população e, ao mesmo tempo, mais rentável para o produtor, tem sido uma das preocupações dos pesquisadores da UENF. Tudo isso, é claro, dentro de uma perspectiva mais equilibrada de produção, buscando a preservação ambiental e a produção de alimentos isentos de resíduos nocivos à saúde.

Em sua pesquisa de doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Produção Vegetal, a agrônoma Andrezza da Silva Machado Neto procurou avaliar o desempenho agroeconômico de duas cultivares de tomate de mesa: Siluet e Santa Clara, em diferentes condições de cultivo e manejo. Intitulada Viabilidade agroeconômica da produção de tomate de mesa sob diferentes sistemas de cultivo e manejo de adubação, a pesquisa foi orientada pelo professor Niraldo José Ponciano, do Laboratório de Engenharia Agrícola (LEAG) do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA) da UENF. Os experimentos foram realizados na Unidade de Apoio à Pesquisa da UENF (UAP).

Foram instaladas duas unidades experimentais na UAP. Na primeira, as plantas foram cultivadas em casas de vegetação sob manejo orgânico de adubação e controle fitossanitário (pragas e doenças). No segundo experimento, o cultivo foi realizado no campo, sob dois sistemas de produção: um sistema orgânico e outro livre de agrotóxicos (Sislagro) com o emprego de adubos minerais. Em todos os casos, Andrezza calculou os custos operacionais e totais da produção, os indicadores e riscos econômicos.

O sistema orgânico de produção em ambiente protegido mostrou-se eficiente do ponto de vista técnico e viável economicamente para as duas cultivares, sendo o melhor desempenho apresentado pela Siluet, com produtividade de 3,56 Kg/planta e lucro líquido de R$ 9,10 por planta.

- Além disso, as atividades se mostraram de baixo risco, com 30,31% e 4,48% de probabilidade de insucesso financeiro, para ‘Santa Clara’ e ‘Siluet’, respectivamente - explica Andrezza.

Já sob condições de campo, o sistema misto (Sislagro) apresentou inviabilidade agroeconômica tanto para o tomateiro Siluet quanto para o Santa Clara. A pesquisadora explica que a produtividade e o preço foram as variáveis (fatores) preponderantes para a inviabilidade agroeconômica, sobretudo o preço recebido. Isto porque, segundo a legislação brasileira para produtos orgânicos, sistemas mistos ou que tenham qualquer insumo ou técnica diferente do regulamentado não podem ser classificados como orgânicos, e, portanto, o preço de venda do produto acaba tendo que ser o mesmo de produtos convencionais (até 80% mais barato).

- A pesquisa nos permite concluir que a melhor proposta é o cultivo orgânico do tomateiro Siluet, com produtividade de 6,02Kg/planta. A atividade foi capaz de remunerar o custo total de R$ 23,70 por planta com a geração de um lucro líquido de R$ 6,34 por planta. Além disso, apresentou-se como uma proposta de baixo risco, com probabilidade de 14,81% para geração de prejuízo econômico, e uma taxa anual de retorno de 83,2%. - conclui Andrezza.

Se quiser saber mais sobre a pesquisa, veja aqui a tese de Andreza.

Cilênio Tavares
Fúlvia D'Alessandri

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Resíduos do vidro podem ser usados na indústria de cerâmica

Pesquisa feita na UENF obteve o 2º lugar no Prêmio Jovem Ceramista 2014

Luciana Simões mostra o resultado de sua pesquisa
Uma pesquisa sobre o aproveitamento dos resíduos do vidro na indústria cerâmica rendeu à aluna Juliana Simões Chagas Licurgo, do curso de Engenharia Metalúrgica do Centro de Ciência e Tecnologia (CCT) da UENF, o 2º lugar no Prêmio Jovem Ceramista 2014, modalidade "universitário", promovido pela Associação Nacional de Cerâmica (Anicer). O resultado do trabalho, realizado no Laboratório de Materiais Avançados (Lamav), foi apresentado em maio, com o artigo: “Aproveitamento de resíduo da etapa de lapidação de vidro em cerâmica vermelha” durante o Congresso Nacional de Cerâmica, realizado em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul.

Na pesquisa — que durou oito meses e teve como orientador o professor Carlos Maurício Fontes Vieira —  Juliana constatou que é possível aplicar menos água na produção da cerâmica e, ao mesmo tempo, confeccionar um produto de melhor qualidade. Essa associação permite menos danos ao meio ambiente, uma vez que os resíduos do vidro geralmente são subaproveitados — grande parte deste material acaba sendo descartara em aterros, ou, então,diretamente no meio ambiente, como em rios, por exemplo.

O objetivo do trabalho foi avaliar o efeito da incorporação de até 40% deste resíduo — gerado na forma de lama proveniente da etapa de lapidação da fabricação de vidros — em cerâmica vermelha. Os resultados indicaram que o resíduo altera as propriedades da cerâmica vermelha com redução da absorção de água  e aumento da resistência mecânica.

A pesquisa foi feita no LAMAV/UENF
Vantagens – O professor Carlos Maurício destaca como uma das vantagens desta técnica a redução do uso de argila, o que traz vantagens ao meio ambiente, uma vez que este é um recurso natural não renovável. A diminuição na quantidade de água, por sua vez, diminui o gasto energético na etapa de secagem, diminindo a retração de secagem e acarretando também um menor risco de aparecimento de defeitos dimensionais. Ele destaca ainda a melhoria da qualidade do produto, com a redução na absorção de água  e aumento da resistência mecânica.

— Além disso, há o reuso do resíduo como um subproduto e possível redução do custo para a empresa geradora. A disponibilidade do resíduo para as indústrias de cerâmica vermelha pode ter um custo menor do que a sua disposição em aterros sanitários industriais — conclui.

O trabalho também foi apresentado no VI Congresso Fluminense de Iniciação Científica e Tecnológica (CONFICT), realizado de 02 a 06/06/14 no Centro de Convenções Oscar Niemeyer da UENF. O Prêmio Jovem Ceramista é promovido pela Anicer com o apoio da Associação Brasileira de Cerâmica (ABC) e tem como objetivo estimular as pesquisas voltadas para a indústria de cerâmica vermelha e premiar projetos com destaque inovador e que contribuam para o desenvolvimento do setor. O primeiro lugar ficou com o artigo “Obtenção de um compósito cerâmica-polímero para a produção de telhas cerâmicas com a eliminação da etapa de queima”, do aluno Fábio Rosso, do Centro Universitário Barriga Verde (Unibave), de Santa Catarina.

Cilênio Tavares
Fotos: Paulo Damasceno

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Pesquisa explica baixa produção de abacaxi

Thiago (ao meio), ao lado de Sérgio e Karla
Doenças provocadas por cinco espécies de fitonematoides que parasitam a raiz das plantas estariam por trás do problema

Numa região onde o abacaxi já foi uma cultura promissora, a realidade atual vem desanimando os produtores rurais. Tudo por conta da queda da produtividade e da qualidade dos frutos colhidos. O problema se transformou em tema de tese de doutorado no Laboratório de Entomologia e Fitopatologia (LEF) do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA) da UENF, sob a orientação do professor Ricardo Moreira de Souza. 

Através de pesquisas realizadas durante cerca de dois anos e meio, os pesquisadores descobriram que a baixa produção e qualidade do fruto se deve, entre outros aspectos, a duas doenças associadas, provocadas por cinco espécies de fitonematoides que parasitam a raiz das plantas, bem como pela praga chamada murcha do abacaxizeiro. Constatou-se que as duas, juntas, potencializam os problemas que vinham se agravando na última década. 

—Na realidade, trata-se de uma interação entre os fitonematoides e a murcha do abacaxizeiro —  diz o professor, lembrando que a área destinada à cultura do abaxizeiro no Norte Fluminense está entre 2 e 3 mil hectares.

O estudo, produzido pelo doutorando Thiago de Freitas Ferreira e auxiliado pelos alunos Karla Daiana dos Santos e Sérgio Wellington Idalino, representa um passo para que, a partir do conhecimento das causas da redução da produtividade do abacaxi, se possa buscar uma solução visando, futuramente, reduzir os reflexos nas lavouras.

— A tese de doutorado teve dois objetivos: primeiro, conhecer os fitonematoides e, segundo, perceber o que estava acontecendo com as lavouras de abacaxi na região — explica Ricardo.

Com a queda da produtividade e da qualidade do abacaxi, os produtores da região foram perdendo mercado gradativamente. O resultado pode ser conferido nas ruas dos municípios do Norte Fluminense, onde, em períodos de safra, os frutos comercializados, em geral nas ruas, são muito pequenos. Isso porque os produtores não conseguem bons preços no mercado fora da região, conforme explicou o professor Ricardo Moreira de Souza. 

— Esses abacaxis são muito pequenos e de baixa qualidade. Por isso não têm colocação no mercado. É muito comum vê-los sendo vendidos nas ruas — diz.

O trabalho foi apresentado em fevereiro deste ano e agora está em fase de preparativos para publicação.

Cilênio Tavares

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Novos caminhos para controle de tuberculose agressiva

Equipe da UENF que participou da pesquisa, tendo à frente a
professora Elena Lassounskaia (terceira à esquerda). 
Estudo de pesquisadores da UENF e da USP identifica mecanismo que aumenta a severidade da doença

Pesquisadores da UENF, tendo à frente a professora Elena Lassounskaia, em colaboração com colegas da USP, nucleados pela dra. Maria Regina D'Império-Lima, conseguiram desenvolver novo modelo experimental para estudo da tuberculose, causada pelo micro-organismo Mycobacterium tuberculosis, conhecido como bacilo de Koch. O estudo identifica um fator genético do organismo hospedeiro que aumenta a severidade da doença, agravando a lesão pulmonar. Tal fator pode ser um alvo terapêutico atrativo em pacientes com formas graves da tuberculose.

O estudo foi publicado no início deste mês na revista PLOS Pathogens, dos Estados Unidos (fator de impacto 8,1). Dos 13 autores, seis são ligados à UENF, incluindo o primeiro autor do artigo, Eduardo Pinheiro Amaral, que se formou em Ciências Biológicas em Campos (RJ) em 2008, tendo atuado como bolsista de Iniciação Científica, e hoje faz doutorado na USP sob a orientação da professora Maria Regina e coorientação da professora Elena.

A tuberculose continua sendo um grande problema de saúde global e especificamente de saúde pública no Brasil, sendo que o país ocupa 17ª posição no ranking mundial de países emergentes na doença. Apesar da existência de métodos de diagnóstico e tratamento, mais de 9 milhões de novos casos são registrados anualmente no mundo inteiro, com cerca de 1,5 milhão de mortes. O desenvolvimento de novas abordagens para controle da tuberculose depende de avanços de pesquisa na área.

Para entender os mecanismos que determinam o desenvolvimento agressivo da doença, os pesquisadores trabalharam em um modelo de camundongos que reproduzem os sintomas da tuberculose pulmonar grave que atinge pessoas. Assim como os pacientes humanos, os camundongos infectados com micobactérias hipervirulentas podem desenvolver lesões necróticas no pulmão. Trata-se de áreas de células infectadas mortas que se rompem, como resultado da multiplicação da bactéria, e liberam seus conteúdos. Este material contém moléculas que promovem um recrutamento de células do sistema imunológico do hospedeiro, e a inflamação local resultante causa ainda mais danos ao tecido pulmonar.

Os pesquisadores trabalharam com modelos de camundongos
Papel do receptor - Um dos componentes de restos necróticos é a molécula ATP (adenosina trifosfato), responsável pelo armazenamento de energia nas células. Quando se encontra fora das células, esta molécula estimula as células de defesa do organismo ligando-se a um receptor chamado P2X7R. Estimulação prolongada do receptor induz nas células um mecanismo chamado ativação de inflamassoma, que promove a produção de moleculas inflamatórias, levando à morte celular. Os pesquisadores perguntaram se essa via molecular desempenha um papel em casos graves de tuberculose, que estão associados à necrose do pulmão. Eles estudaram camundongos que foram deficientes para receptor P2X7R e descobriram que aqueles ratinhos sobreviveram bem às infecções causadas pelas cepas hipervirulentas, enquanto os camundongos normais morreram precocemente devido à severa inflamação.

- Isto abre caminho para novas abordagens terapêuticas em que os medicamentos destinados a inibir o receptor P2X7R serão usados para melhorar os resultados do tratamento de formas agressivas da tuberculose – explica a professora Elena Lassounskaia.

Entretanto, as melhorias no quadro de doença em camundongos sem o P2X7R só foram vistos após a infecção com as micobactérias hipervirulentas. Em animais infectadaos com uma cepa de bactéria menos agressiva, a estimulação de células imunitárias mediada por P2X7R foi menos intensa e não resultou em morte celular e liberação de micobactérias vivas, e assim efetivamente contribuiu para a contenção da infecção, em vez da sua propagação.

Os efeitos opostos de P2X7R observados na infecção pulmonar com cepas micobacterianas hipervirulentas e cepas menos agressivas, respectivamente, poderiam explicar um enigma epidemiológico: as variantes defeituosas do gene de P2X7R que determinam a perda da sua função de P2X7R são comuns na população humana moderna, apesar do fato de que o receptor funcional pode contribuir para a proteção contra micobactéria em casos da infecção moderada. Com base nos seus resultados, os investigadores sugeriram que tais variações podem aumentar o risco de doença moderada, mas reduzir o risco de tuberculose grave. Isso, dizem eles, "poderia explicar por que a pressão evolutiva tem mantido esses polimorfismos do gene a taxas elevadas na população humana".

UENF reforça estrutura laboratorial

Pesquisas com micro-organismos como a bactéria causadora da tuberculose, que é transmitida facilmente através de ar, exigem estrutura laboratorial cuidadosa. Até agora, os pesquisadores da UENF estavam encontrando dificuldades no desenvolvimento dos seus projetos de pesquisa dos micro-organismos de maior risco por falta da infraestrutura adequada, dependendo da  cooperação com outras instituições, como foi o caso da parceria com a USP.

Com verba de R$ 430 mil captada junto à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep, vinculada ao governo federal), a UENF iniciou este ano a construção de uma sala multiusuária de nível 3 de biossegurança (NB3), apropriada para  pesquisas com agentes de maior risco. Segundo a professora Elena Lassounskaia, a nova estrutura também será importante em função do aumento dos fluxos migratórios de pessoas na região por conta do funcionamento do Complexo Portuário do Açu, que pode levar ao aparecimento de micro-organismos patogênicos não típicos para a região. A sala multiusuária será usada não apenas por vários laboratórios da própria UENF, mas também por pesquisadores-colaboradores do Instituto Federal Fluminense (IFF), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ/polo Macaé) e do Hospital Geral de Guarus, da Prefeitura de Campos.

Além da conclusão da obra, prevista para cerca de quatro meses, Elena vislumbra o desafio de treinar toda a equipe técnica envolvida no trabalho NB3 e oferecer a ela um adicional condizente de insalubridade, a seu ver ainda insatisfatório.

- Também é preciso que o Conselho Universitário aprove finalmente a criação da Comissão Interna de Biossegurança, que de acordo com a legislação nacional deve organizar e fiscalizar todo trabalho com organismos geneticamente modificados (animais, plantas, células, micróbios), além de patógenos e animais infectados – lembra a professora.

Reportagem: Gustavo Smiderle
Fotos: Alex Cordeiro

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Toxoplasmose e toxoplasma: livro atualiza informações

Obra será lançada em 10/07/14, às 17h, na Academia Nacional de Medicina

O livro compila conhecimentos sobre o tema
Infecção hoje muito disseminada ao redor do mundo, especialmente no Brasil: assim é a infecção por Toxoplasma gondii, protozoário descoberto em 1908 por cientistas no Brasil e na Tunísia, simultaneamente. Começando pela história da descoberta desse parasita e da doença por ele causada, a toxoplasmose, e visitando os diferentes aspectos relacionados ao tema – ciclo evolutivo, epidemiologia, diagnóstico, quadro clínico e tratamento –, os professores Wanderley de Souza (UFRJ e Inmetro, ex-reitor da Uenf) e Rubens Belfort Jr. (Unifesp) organizaram ampla revisão sobre o assunto. O resultado desse trabalho é a coletânea Toxoplasmose & Toxoplasma gondii, com 16 capítulos e 27 autores, lançamento da Editora Fiocruz.

Os mais importantes protozoários causadores de doenças no homem foram descritos no período entre 1875 e 1910. O T. gondii estava entre eles.

- Embora a identificação do Toxoplasma gondii tenha ocorrido em 1908, sua transmissão permaneceu um mistério durante trinta anos -, dizem os pesquisadores do  Helene Santos Barbosa, Renata Morley de Muno e Marcos de Assis Moura, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), autores de um dos capítulos do livro. Em 1937, foi demonstrada a evidência de que o T. gondii é um parasita intracelular obrigatório, isto é, ele só se multiplica no interior de células do animal infectado. E somente nos anos 1970 desvendou-se o ciclo de vida desse protozoário, do qual o gato é hospedeiro definitivo. Outros animais de sangue quente, entre eles o ser humano, são hospedeiros intermediários.

As fezes de gatos infectados contêm formas do parasita que podem contaminar água, ar, solo e alimentos, e, assim, ser transmitidas a outros animais, incluindo aves, bovinos e suínos. O homem contrai a infecção por duas rotas principais: oral (pela ingestão de água e alimentos contaminados, assim como da carne crua ou malpassada) e congênita (de mãe para filho, durante a gestação). A toxoplasmose congênita – a mais grave e notável das manifestações da doença – é abordada em outro capítulo do livro, que também dedica espaço à toxoplasmose na criança.

- Há pouco mais de cinquenta anos era patente o caráter de ser a toxoplasmose uma doença nova. Depois, graças ao labor de vários cientistas, ficou evidente que essa protozoose é muito comum e, felizmente, benigna, só eventualmente assumindo feição de enfermidade grave -, afirma o professor Vicente Amato Neto, da USP, que assina o prefácio da coletânea.

Muitos indivíduos infectados pelo T. gondii não apresentam sintomas, mas, quando a doença se manifesta, pode ter diferentes configurações, afetando gânglios, olhos, coração, pulmões, fígado, cérebro e meninges, ou articulações. Outro capítulo do livro é dedicado à toxoplasmose em pacientes com sistema imunológico debilitado, como na Aids, pois eles costumam apresentar um quadro clínico mais sério e generalizado, ao terem vários órgãos atingidos. Outros capítulos abordam aspectos importantes da toxoplasmose como a sua epidemiologia, os modernos métodos laboratoriais para o diagnóstico da doença, a toxoplasmose congênita, as manifestações da infecção na criança, a toxoplasmose ocular e considerações sobre o desenvolvimento de novas drogas com ação antiparasitária bem como as utilizadas atualmente para o tratamento da infecção pelo Toxoplasma gondii.

- A coletânea cobre praticamente todos os campos do conhecimento sobre o agente etiológico e a doença, apresentando novos aspectos, particularmente em relação à bioquímica, à interação entre o parasita e a célula hospedeira e à resposta imunológica à infecção -, avalia o pesquisador José Rodrigues Coura, do IOC/Fiocruz.

Lançamento: 

Simpósio Toxoplasmose e Toxoplasma, 10/07/14,  às 14h, na sede da Academia Nacional de Medicina (ANM), Av. General Justo, 365 / 7º andar -  Centro - Rio de Janeiro (RJ)

(Texto:  Paula Almeida, com informações da ANM/ Editora Fiocruz)